A Valorização do “Ser Você Mesmo” – Entrevista com Momoko Schafer de Blown Away

Oi eu sou o Bruno, e hoje estou particularmente feliz em trazer essa entrevista que fiz com a Momoko Schafer. Ela é uma artista americana que trabalha com esculturas em vidro, carrega uma forte herança japonesa e explora isso em suas obras. É fundadora de um projeto que busca dar visibilidade a outros artistas de diversas áreas e foi, ainda nesse ano, uma das participantes do reality show de competição Blown Away (Vidrados) na Netflix.

© Momoko Site

Para quem não viu ainda a série, eu escrevi um outro post indicando o programa, e você pode conferir mais informações sobre ele clicando aqui: Blown Away ( Vidrados) — O Reality Que Você Não Sabia Que Queria!. A primeira temporada estreou em junho, e possui episódios curtos, e claro você não precisa ter assistido a competição para acompanhar a entrevista abaixo, pois na conversa focamos principalmente no trabalho e nas mensagens que a artista busca entregar, através dessa arte, que é relativamente incomum.

© Momo – Netflix Blown Away

No site oficial da artista ela tem uma página onde conta detalhadamente sobre sua carreira e os locais onde trabalhou e expôs seu trabalho, essas informações podem ser lidas na integra em inglês, no link a seguir momokoschafer.com/about.

Eu deixo aqui um breve resumo sobre ela, para você conhecer um pouco antes da entrevista.

Mais conhecida como Momo, Kristen Momoko Schafer, nascida em Boston – Massachusetts, nos EUA, foi criada no interior, e passava boa parte dos verões, enquanto crescia, em Sagamihara no Japão, ondem também teve seu primeiro encontro com o vidro esculpido como forma de arte. Após se formar no Massachusetts College of Art and Design (MassArt),  ela obteve uma residencia no FireSeed Studio, e a oportunidade de exibir seu trabalho em um evento organizado pela Pi Art Society. Além de outras diversas conquistas e oportunidades em universidades de arte e galerias, ela foi convidada para participar da primeira temporada de Blown Away, o programa da Netflix, que tem como objetivo trazer a uma audiência maior esse tipo de trabalho com o vidro.

 

© Momoko Site

Introdução feita, você pode acompanhar agora a entrevista traduzida.

Bruno: Primeiro de tudo, é um prazer imenso ter essa oportunidade. Por isso, obrigado por ceder um pouco do seu tempo.

Muitas pessoas vão poder conhecer você e seu trabalho, agora através do programa na Netflix. Eu imagino que esse tipo de exposição é algo muito válido pra sua carreira , mas também deve ter sido difícil em algumas partes. Como um expectador em casa eu, percebo que deve ter tido momentos muito difíceis, por ter que lidar com o tempo curto, e mesmo ter que apresentar sua obra e ela não ser completamente entendida pelos jurados. O que você pode falar sobre essa experiencia?

Momo: Uma das coisas mais difíceis nessa competição com certeza era correr contra o relógio. É senso comum, que se você apressar demais o processo com o vidro, ele vai quebrar. E ter isso em mente, foi tudo o que mais fiz, para manter um ritmo contínuo, mesmo quando estava cheia de adrenalina. Eu tinha em mente, que ao participar dessa experiencia tão unica, eu aprenderia bastante, e ao me submeter aos desafios propostos, eu fui levada a direções que talvez eu nunca tivesse explorado se não fosse por isso. Eu nunca finalizei tantas peças em um período tão curto de tempo. Eu aprendi muito sobre o que eu sou capaz, sobre minhas habilidades como artista e como uma ‘glassblower’.

© Netflix Blown Away

Bruno: Falando sobre você e seu trabalho especificamente, você tem um background muito rico, por todas as experiencias que você pode viver, com os cursos e as exibições e etc. E é notável no seu trabalho, como existe uma busca para transmitir uma mensagem, para apresentar sua voz artística. Você tem suas opiniões e sua própria visão de mundo. Claro parabéns por isso, mas, é difícil conseguir alcançar isso? Quais as dificuldades mais presentes ao realizar sua arte?

Momo: O que é mais difícil sobre ser um artista é que não é todo mundo que enxerga a arte como algo essencial. Você pode  observar, qualquer civilização próspera tem alguma forma de arte, porém as pessoas continuam falhando em reconhecer isso. O que eu produzo representa o hoje, através das minhas experiencias, e muitas pessoas tem dificuldade em aceitar algo que não lhes é familiar. Eu encontro sempre alguma resistência por conta da minha raça, sexo, idade e crenças, mas diante desse tipo de cenário eu continuo e persevero porque eu quero ver uma mudança. Eu vejo isso como uma “responsabilidade artística” e ser uma parte ativa nesse tipo de conversa.

© ‘The Future is What you Cannot See’ – Momo

Bruno: De volta aos seus momentos na série, ou até mesmo antes, você falou sobre sexismo e preconceitos que mulheres sofrem principalmente no meio de trabalho, ou simplesmente sendo elas mesmas. Você vê alguma mudança na nossa sociedade? O que nós deveríamos fazer para contribuir com a mudança, para criar um ambiente melhor e mais saudável?

Momo: Mudar a cultura é algo que leva bastante tempo, mas eu acredito que já estamos progredindo em algumas áreas. Ver o sucesso da Deborah Czeresko (uma das participantes do reality) é um sinal dessa mudança; mas ela é apenas uma pessoa, e nós não podemos nos deixar enganar com isso e achar que esse é o fim da conversa. Quanto mais nós aprendermos, entendermos e continuarmos a ter interesse sobre as perspectivas do outro, melhor nós poderemos co-existir. 

© Deborah Czeresko – Netflix Blown Away

Bruno: Falando sobre representatividade, como você vê esse assunto?  Como vê o fato de hoje você ser alguém que as pessoas podem se inspirar? E quem são as pessoas que te inspiram?

Momo: Eu raramente vejo na mídia alguém como eu, alguém em que eu possa me ver e me identificar, por isso eu nunca me imaginei nessa posição. Tem sido absolutamente surreal, me ver na “tela” e ter tantas pessoas entrando em contato, e falando sobre como elas ficaram animadas, felizes e com aquele sentimento de validação. Elas puderam se ver em mim, e tem ofertado bastante apoio pelo o que eu puder apresentar na série.  Sobre quem me inspira, eu sempre gostei de pessoas que são simplesmente elas mesmas, sem pedir desculpas por isso. Alguns exemplos que você pode conhecer são FKA Twigs, Ali Wong, David Choe, e claro Yayoi Kusama.

Bruno: Ainda sobre inspiração, você tem um projeto do qual é co-fundadora, chamado Self Love Social Club, o que pode falar sobre esse projeto? E o que quais os objetivos?

Momo: Pra mim, não existe nada mais bonito do que alguém que é verdadeiramente ela mesma, que abraça a vontade de ser simplesmente quem é, e consegue se encontrar e se ver imersa no seu elemento. Eu quero ver mais disso no mundo e com a ajuda de Papatson Suphavai, Sakinah Bramble-Hakim, e Dominique McLean, os outros co-fundadores, nós temos sidos capazes de construir esse coletivo chamado Self Love Social Club. Nós criamos uma plataforma que evidencie artistas e suas vozes que contam historias que não são comumente representados na mídia mainstream. O que buscamos é apresentar algo que seja autêntico e claro ofereça o aspecto de representatividade, gere identificação, principalmente para as minorias.  Além de divulgar artistas, artigos, podcasts entre outros, na nossa página no instagram a @selflove_socialclub, nós criamos uma espécie de evento no Brooklyn em Nova York. Durante o lançamento do Self Love Social Club, nós pudemos preencher uma galeria com pinturas, artigos de moda, fotografia e esculturas. E essas artes incluíam uma grande variedade dentro do espectro de gênero , praticas de cura e  culturas diversas. Também tivemos algumas performances ao vivo e um DJ. Mais de 100 pessoas se reuniram, naquela noite para celebrar e compartilhar ideias. Nós torcemos para que no futuro consigamos levar essa experiencia para outros lugares e outras cidades.

 

 

Bruno: Ainda sobre esse tópico, eu pessoalmente vejo que um dos grandes problemas que enfrentamos são questões relacionadas a saúde mental. Hoje ainda é um taboo muito grande, falar a respeito e até mesmo buscar ajuda. Como você enxerga esse assunto? A arte em geral pode ajudar a trazer esse tipo de assunto a tona? ou servir como um espaço para transmitir ideias relacionadas?

Momo: Durante o evento, nós também tivemos um painel com a discussão de tópicos relacionados a como nossas definições de amor, vão evoluindo através da nossa vida, e quando nós criamos a familiaridade com o termo “self love (amor próprio)”. Nós também discutimos a questão da terapia e mesmo como achar alternativas e processos de cura fora das práticas “ocidentais”. Durante o evento nós tivemos pessoas que falaram abertamente sobre as dificuldades que passam em vida, e muitas pessoas puderam se sentir representadas e ter suas experiencias validadas pela arte e as performances que elas testemunharam ali. Por isso, nós estamos pensando em ter eventos futuros que foquem em temas específicos como esse da saúde mental e a da arte. Mesmo diante de tudo que Nova York pode ofertar, várias pessoas falaram sobre como, até aquele dia, elas nunca encontraram uma arte, e apresentações, com a qual elas pudessem sentir uma conexão tão profunda, ou que elas se sentissem representadas, um lugar onde elas pertencessem. Eu acho que essa epifania por si só, é algo muito poderoso, e os efeitos disso vão continuar a se propagar.

Bruno: Um ultimo assunto que gostaria de ter sua fala a respeito, é sobre como você pratica sua arte. Em algumas peças é possível ver um pouco da sua herança asiática sendo representada, em outras vemos referencias a formas de arte moderna e em outras encontramos seu lado mais critico. Você pode falar um pouco sobre o processo de dar vasão a esses traços artísticos e sobre as mensagens que você busca passar?

© Momoko Facebook

Momo: Fazem cinco anos, oficialmente que comecei a minha carreira, eu sei que meu trabalho vai continuar a mudar,e por isso eu decidi que essa seria uma oportunidade de me mostrar como eu sou como pessoa. Exemplificando, vamos falar da obra “The Real Me is the Best Me” ( que é aquela com o bento/sushi). As pessoas conseguem reconhecer o elemento japonês da peça, mas normalmente não veem os outros elementos culturais. Ela é grande, brilha, fala alto e tem muito orgulho o que é muito “americano”, e também tem peças de linguiça.  Eu não espero que minha arte seja completamente entendia, até porque eu não espero que as pessoas consigam me compreender totalmente. Mas me deixa feliz poder compartilhar algo que vai deixar as pessoas curiosas e até inspira-las . Existem tantas ideias, sentimentos e emoções que são universais, e o que eu mais quero é que a autenticidade seja valorizada.

Bruno: Mais uma vez, muito obrigado pelo seu tempo e por essa entrevista. Eu virei um fã do seu trabalho e como você tem falado abertamente e dado espaço para outros falarem sobre temas tão importantes hoje em dia, além claro de expressar tudo isso através da arte, e uma arte tão cativante. Se tiver qualquer mensagem que queira adicionar ao que já foi dito, por favor fique a vontade.

Momo: Eu que agradeço por essa entrevista. Eu ouvi dizer que existe um movimento que está crescendo de artistas que utilizam o vidro, no Brasil e eu espero poder ver algo do tipo pessoalmente um dia. Se qualquer um que leia essa entrevista, seja um artista ou conheça sobre isso, fique a vontade para entrar em contato. Eu também fiquei sabendo que existe uma grande população nipo brasileira em São Paulo, e essa fusão da cultura Japonesa e Brasileira deve ser incrível, e eu espero poder conferir um dia.  Obrigado a todos que ficarem interessados em conhecer o meu trabalho, e espero que fiquem curiosos para aprender mais sobre. Obrigada.

Quem quiser saber mais pode acessar: 

MomokoSchafer.com

Facebook: Momoko Schafer / Instagram: @glassymomo

Patreon.com/MomokoSchafer

© Momoko Facebook

 

Essa foi a rápida entrevista que a talentosíssima Momoko, concedeu, e eu só tenho mais algumas coisas a adicionar. Um dos principais temas que eu quis discutir com a Momoko era sobre o papel da arte e como ela pode ser um espaço de aceitação enorme. Eu queria produzir algum conteúdo que possibilitasse alguma reflexão a respeito de questões ligadas a saúde mental, principalmente por conta do Setembro Amarelo. Quando fiquei sabendo do projeto Self Love Social Club, eu sabia que tinha que conversar com ela sobre todas essas questões. E como ela mesma disse, a arte tem um poder muito grande de identificação, e pode ajudar bastante as pessoas, principalmente a elas conseguirem valorizar ainda mais elas mesmas e se sentirem representadas.Então não deixe de conferir todo o trabalho dessa artista incrível, confira mais dela no próprio reality da Netflix e claro nas redes sociais.

Esse post é especial do Setembro Amarelo, conversando com a própria Momoko, ela falou sobre como é importante falarmos sobre esses assuntos, e concordamos que é necessário falar sobre temas como esse, temas relacionados a ser você mesmo, a se sentir confortável na sua pele, e claro estar sempre disposto a cuidar da sua saúde mental. Então espero que você aproveite para refletir, conhecer coisas novas, apreciar um pouco de arte e etc. Lembre que você tem muito valor, e só de se dedicar a ser você mesmo verdadeiramente, a buscar autenticidade você já está sendo um grande artista.

Antes de finalizar esse artigo, tem mais algumas informações que entendo que sejam importantes mencionar. Primeiro, o Setembro Amarelo, é uma campanha que visa combater o suicídio e trazer mais atenção a temas como esse, temas relacionados a saúde mental e o processo de auto aceitação e auto conhecimento. Esse processo claro não é algo fácil. Seja a respeito das dificuldades de encontrar sua própria voz, ou de ter que lidar com a rejeição e sentimentos de não pertencimento, existem dilemas que se enfrenta cotidianamente, e vão tornar todo o processo de se entender e viver melhor mais complicado. Mas apesar disso hoje começamos a ter bons exemplos de como lidar com isso, e cada vez mais pessoas dispostas a incentivar toda a questão do autoconhecimento e reflexões sobre o que é positivo e o que é tóxico para a nossa vida. Quando eu menciono aqui saúde mental, eu imagino que muitas pessoas nem estejam familiarizadas com essa ideia, e que na nossa sociedade tudo relacionado a mente é “irremediável e não devíamos falar sobre isso” ou é simplesmente “besteira”. Mas eu também acredito que estamos mudando isso, nós podemos ver pessoas falando abertamente sobre certos problemas e isso vai gerar identificação, pessoas diferentes aparecendo na mídia vai gerar representatividade, e falar sem receio sobre como pensamos e nos sentimos vai tornar mais fácil as conversas, e esse movimento vai se espalhar e crescer com tempo.

Esse post é também uma tentativa de trazer esse tema a tona e mostrar como ele está envolvido na nossa vida. Sinta-se completamente livre para falar de suas experiencias, e se algo te trouxe algo aqui te fez refletir. Você pode dividir suas impressões, falar das coisas que te incomodam ou não. E claro comentar o que pensa de tudo o que foi mencionado. Lembre-se também de buscar ajuda se precisar, não existe vergonha nisso. E vamos dialogar.

 

See You Later Elevator!!

 

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