Black Clover – Clichês Podem Ser Usados e Aprofundados!

Oi Eu sou o Bruno, e precisamos falar sobre Black Clover! Pois é, daquele anime lotado com todos os clichês possíveis, onde o protagonista só grita e foi tido como insuportável até dentro da obra. Sim, eu vou falar bem de Black Clover. E sei que é o anime que muita gente odeia, ou já dropou nos primeiros episódios (eu mesmo já fiz isso). Mas, me acompanhe que ao menos vou te convencer que a obra tem sim pontos positivos!

Black Clover  ganhou a versão em anime em 2017, pelo conhecido Studio Pierrot. Esse estúdio foi o responsável por animar grandes shounens de ação como Naruto, Yu Yu Hakusho, Bleach e etc. O mangá de Yuuki Tabata, que deu origem ao anime, começou a ser publicado em 2015 e continua em publicação na Weekly Shonen Jump da editora Shueisha no Japão. A casa do anime e do mangá, nesse caso, contam muito até mesmo para como se dá a recepção que ele recebe. Logo em seu lançamento, foi impossível não enxergar nessa obra uma repetição de elementos que já haviam sido usados de todas as formas por seus predecessores. Aqui no Brasil, foi possível notar,  pelos comentários online, uma clara rejeição na época que o anime foi ao ar, tendo como principal crítica a aparente “falta de originalidade” do novo lançamento, além da evidente rejeição ao protagonista, que era uma versão “piorada” e menos relacionável do herói padrão, que todos estão habituados.

É inegável ver nessa obra características clássicas do “herói e protagonista” que foram realmente bastante usadas em Fairy Tail, Naruto Shippuden, Dragon Ball e outros, onde a personalidade desse protagonista é dificilmente alterada, e temos um padrão construído. A própria narrativa clichê do herói improvável foi bastante usada, afinal dessa vez temos um mundo de magia e Asta, nosso herói, não é apenas ruim em usa-la ele simplesmente não a possui. E esse é um dos pontos em que o autor mostra que irá sim abusar dos padrões já usados e aprovados para contar sua história, mas ainda assim fazendo dela sua versão e não apenas uma repetição.

Asta

Definitivamente, esse é o primeiro “ponto contra” para todos que começaram a ver o anime em seu lançamento. Logo de inicio temos uma história bem genérica sendo apresentada, com o clichê da “criança órfã” que sofre bastante, mas não se deixa abater. Entretanto ele não é travesso como o Naruto ou mesmo super inocente como o Goku, ele acaba sendo um pouco dos dois, e como o autor já declarou, também mais “burro”, além de ter o péssimo hábito de gritar para tudo, sendo tão irritante que nem mesmo dentro da obra isso passa despercebido. Isso vai mudar com o tempo, ou de alguma forma você se habitua e realmente passa a ser mais engraçado do que um incomodo.

Asta nos ensina cada vez mais…

Asta além de mostrar que irá lutar pelo seu sonho e conquistá-lo com seu esforço, passa a mostrar uma personalidade genuinamente justa, gentil e altruísta. Seu sonho de se tornar Hokage, digo Rei Mago, não é apenas  para finalmente ser reconhecido depois de todo o bullying que sofreu e ter reconhecimento mesmo sendo plebeu. Ele busca esse sonho para mostrar a todos que mesmo alguém como ele que nasceu sem magia, pode alcançar esse título, e mostrar que o preconceito que todos propagam é simplesmente errado e tolo. E acima de tudo ele busca isso não por si, mas para que todos no seu pequeno vilarejo e as outras crianças órfãs não tenham que sofrer e possam ter esperança.

É muito bom ver esse tipo de pensamento sendo aplicado, e como dito antes, ver altruísmo verdadeiro e claro empatia. Asta mostra ser construído com valores realmente profundos e que irá colocar eles em prática.

Outro ponto que me fez refletir melhor sobre como o Asta se mostra um protagonista bem trabalhado, é que diante de inimigos evidentemente poderosos, ele sim sente medo, e pensa em hesitar, mas seu desejo em proteger os outros e fazer algo a respeito se manifesta mais fortemente. Percebe-se que o autor entendeu o comportamento que o herói deveria praticar, e conseguiu aplicar isso da melhor maneira com as ações desse protagonista, de modo a fazerem sentido. Em um outro momento Asta mostra simpatia para com aqueles que foram introduzidos como vilões, mas não por ingenuidade ou mesmo o desejo de continuar lutando com eles (né Goku), mas sim porque reconhece esses “vilões” como pessoas que passaram por algo e cometeram erros. Sim esse é o clichê do protagonista amigável, mas ele não é raso ou ingênuo, ele é simplesmente justo e verdadeiramente humano.

O Mundo e os Personagens

O reino de Clover se mostra vivo, tendo tensões políticas apresentadas, bem como conflitos externos, e isso não é esquecido, uma vez que será parte do desenvolvimento futuro da trama. Esse mundo parece existir verdadeiramente e não só quando o protagonista está por perto para acompanhar. Se trata de um mundo meio medieval che io de fantasias, e ganha mais atratividade em elementos quando dungeons, outros reinos e seitas são introduzidos. Em entrevista o autor do mangá revelou que não conhece muito sobre RPG nem mesmo lê muita fantasia, mas ainda assim conseguiu criar um mundo bem estruturado, com regras próprias e o principal, personagens cativantes.

 

Aqui nós temos os Touros Negros, que são um dos esquadrões a serviço do Rei Mago, que irão realizar missões especiais e lutar para defender o povo e o Reino de Clover. Mas esse grupo não é dos bons, eles são tidos como os piores dentre todos os outros onde somente os considerados “falhas” fazem parte dele. A narrativa do underdog, que precisa superar adversidades fica bem evidente, mas o principal aqui é que todos terão seu momento, e sua chance de brilhar não vai vir solitária em um ou outro episódio em que o protagonista não aparece. Em Black Clover, os coadjuvantes tem voz, personalidade, carisma e acima de tudo, espaço em tela, de uma maneira coerente e natural. O fato de serem um esquadrão é usado, e eles realmente lutam juntos.

Naruto é um anime que todos concordam que possui falhas no desenvolvimento de personagens secundários; temos um universo rico e complexo apresentando uma estrutura de times e ranqueamento hierárquico, onde em cada um desses seus componentes possuem características próprias a serem desenvolvidas, além da historia pregressa, que serve para enriquecer e trazer consistência aquele mundo. E apesar de acontecer um desenvolvimento de um desses times como foi o caso da vingança de Shikamaru, esses momentos foram isolados ou pareciam algo distante de todo o resto, para posteriormente serem ofuscados pelo brilhantismo do protagonista. (Longe de mim reclamar do brilho do Naruto, mas todo mundo queria mais Neji e Menos drama com o Sasuke). A questão aqui é que, a chance de cair no erro como o que citei de Naruto existia. Mas mais uma vez eu fiquei surpreso ao ver um time repleto de pessoas, poderes e motivações diferentes, sendo apresentadas e aproveitadas em um arco importante para o personagem principal.

Eles Tem o Seu Próprio “Salt Bae” nesse Mundo

No arco do templo subaquático todos os membros do Touro Negros, e mesmo o capitão tiveram participação, diálogos representativos e desenvolvimento narrativo, além de uma cena de batalha em equipe realmente digna. O protagonismo dessa vez foi para o time todo. E isso foi algo que notei acontecendo mesmo com outros personagens, já que Asta também tem seu rival/amigo de infância, e aqui ele não é esquecido e volta depois com poderes novos, é possível acompanharmos o desenvolvimento dele e de seus novos companheiros, entender suas razões e até mesmo simpatizar com ele assim como  com todos os companheiros de Asta.

 

Cenas de “Lutinha”

Claro, que todo anime de ação assim irá tentar ganhar seu público pelas cenas de lutas, e confesso, foi isso que me fez voltar a assistir Black Clover, e acabar percebendo tudo o que falei até agora. Apesar de não ser especialista nessa área, posso confirmar que as cenas de combates são ótimas e tem um elemento que te cativa. A animação tem qualidade e o melhor, tem ritmo. Essa é uma questão que o próprio autor comentou em uma entrevista ao Viz, quando questionado sobre como as coisas acontecem na historia e o ritmo, parafraseando a sua resposta, ele fala sobre como ele gostaria de dar mais espaçamento/ir mais lentamente, mas a história simplesmente acontece. E essa é a principal sensação que tenho, o anime flui. Com exceção dos episódios iniciais, todos os outros parecem ter sua necessidade e uma ponta de desenvolvimento, alguns claro sendo mais importantes para a historia geral desse mundo e outros para os personagens que acompanhamos.

Entrando em um campo que opino melhor, é possível observar o impacto narrativo das lutas, elas não existem casualmente para causar excitação, nem mesmo são desniveladas para tudo o que já foi apresentado até então. Não vou mencionar mais nenhuma grande saga ou acontecimento  que enfatize esse ponto, pois acho que vale a pena ver como o autor subverte plots que já vimos antes, além de trabalhar muito bem com as limitações e elementos de cada personagem, criando como já falei cenas cativantes tanto pela ação quanto pelos personagens.

Clichês Podem Ser Usados e Aprofundados!

Cada obra tenta se destacar por trazer um elemento novo seja na narrativa ou dentro do próprio enredo, em Black Clover isso não parece existir de cara. Tudo o que enxergamos de cara é o “clichê”, mas ao observar atentamente, fica claro que esse clichê está sendo aproveitado e refinado. Claro que nenhum dos elementos que compõe as histórias padrão, são necessariamente ruins, eles fizeram e fazem sucesso por vários motivos e principalmente por serem válidos e agradáveis. Black Clover se destaca por não simplesmente usar de conceitos já vistos como régua para construir o universo, e sim entender que eles existem e usar  a fundo.

Acho que ninguém pode atestar que a obra é incrível ou um marco; mas hoje consigo enxergar qualidades que fico muito feliz de ver sendo apresentadas. Como falei antes, a personalidade e as ações de Asta conseguem transparecer de verdade como é esse herói que todos em algum momento já admiramos. O autor foi muito feliz ao conseguir apresentar com profundidade as emoções e refletir em ações de seus personagens. Esse mundo criado é sim atrativo e cativante, e mesmo tendo os tais clichês, eles não são mal utilizados.

Eu sempre afirmo como é invejável a maturidade do mercado japonês ao ter tantas obras “parecidas” e ainda assim conseguir se manter vivo e criativo. Em Black Clover os clichês existem pois nos acostumamos a ver eles, mas aqui eles realmente são “reformados”, fazendo a obra ter seu espaço ao deixar um exemplo de como aperfeiçoar características e  plots e assim contar uma história usando ao máximo o que tem ao seu dispor.

E no fim é divertido pra caramba. (risos)

 

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