Danmachi e a Dualidade do Sexo na Sociedade em que Vivemos

Oi eu sou o Bruno e temos algumas questões recorrentes na segunda temporada de Dungeon ni Deai wo Motomeru no wa Machigatteiru Darou ka para abordar . Vamos chamar só de Dungeon?!

A segunda temporada do anime estreou em julho(de 2019), até agora na temporada tivemos o arco do War Game que é a guerra entre as casas de ApoloHestia, q8e logo após inicia-se um arco em que uma nova personagem é apresentada, Haruhime, meia raposa, de uma raça chamada Renard. Sua aparição ocorre no episódio 06, assim como o assunto que me fez escrever hoje. Muito ainda se desenvolve sobre a história dessa personagem, mas algo que é apresentado rapidamente e acaba servindo de plot para o personagem principal é do fato da Haruhime ser uma prostituta.

© DanMachi 2 – J.C.StaffA personagem pertence a família da deusa Ishtar, e tem seu encontro com o protagonista em uma parte da cidade chamada bairro dos prazeres, além de ser o território deles.

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Explicações de como tudo funciona nesse local são feitas posteriormente, mas o básico é que aquela família é composta por amazonas, que além dos trabalhos como aventureiras na dungeon da cidade, elas também realizam o “trabalho sexual”. Ishtar é uma deusa da fertilidade, do sexo e também da guerra, sua família é predominantemente composta de mulheres, e sua família é uma das mais poderosas daquele lugar.

Uma cena específica me chamou muito a atenção, em que a personagem Haruhime revela que assim como Bell, o protagonista, ela também adora os heróis das lendas e das histórias. Ambos compartilham algumas de suas narrativas favoritas e passam a noite conversando. Porém, tudo começa a ganhar um tom diferente quando a personagem revela seu desejo de ser de alguma forma resgatada, como nas histórias, mas logo emenda com um discurso de como ela não tem mais direito a isso.

Alguns pontos são bem explícitos no que ela fala; a personagem baseia suas palavras em como alguém na mesma posição que ela, prostituta, é sempre retratada nas histórias. Sempre alguém suja e que irá servir de “destruição” para o herói.  Ela também aponta para o fato de como é sempre um herói salvar uma donzela em perigo, e continua falando sobre não ter se mantido pura, ter feito sexo em troca de dinheiro e de não ser mais “digna” de nada, nem mesmo de apreciar as lendas dos heróis.

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Após esse momento, Bell fica estático. Sua postura muda e ele permanece em silêncio. Mesmo sendo uma pessoa otimista e que nunca ligou para as falhas de seus companheiros, nem os que o enganam e roubam, Bell simplesmente parece concordar com Haruhime, pois as coisas são realmente assim. 

E é sobre isso que eu quero falar!

Não é novidade animações trazerem conceitos normalizados na nossa sociedade, e elaborarem suas críticas, inclusive isso é o que pode transformar uma obra; a sua capacidade de ser relacionável e apresentar questões que vemos na nossa vida. Quando eu vi a cena no bairro dos prazeres pela primeira vez, eu estava cético sobre tudo o que podia ser dito ali. Eu não acreditava que nenhum discurso profundo seria apresentado, até aquele momento.  Danmachi é um anime cheio de echhi e/ou fan service, cheio de cenas com conotação sexual e de sexualização exagerada de suas personagens femininas; talvez por isso minha surpresa ao ver uma fala que mencionasse diretamente um assunto que gere tanto debate e que toque em algo tão direto a nós, que é sobre como todos estamos habituados a ver o sexo. Ele sendo uma coisa que faz das pessoas “obscenas”. 

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A questão é que no anime, o bairro dos prazeres da Família Ishtar não é algo escondido; é muito frequentado, inclusive pelos deuses. A própria família dessas amazonas é considerada uma das maiores da cidade, uma das mais poderosas que ninguém se atreveria a desafiar. Mas uma de suas componentes perpetua o discurso de que trabalhar com o sexo, faz dela alguém indigna e logo detestável a todos. 

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Essa dualidade estranha é extremamente real. E nós vivemos ela constantemente. Sexo é um dos tabus mais pesados na nossa realidade. Dificilmente falamos sobre, temos muita vergonha, e ele é sempre relacionado com situações de poder. O sexo é aquilo que vai definir até mesmo nosso valor: homens virgens são ridicularizados, e mulheres que não se mantém assim são imorais. E é essa situação que foi construída com o tempo que levou a essa visão que ainda hoje é perpetuada na nossa sociedade e somos apresentados também no anime. O que aprendemos pelos meios comuns é que quem trabalha com o sexo, de qualquer forma, é alguém imoral, ilícito e que deve ser mantido afastado, são pessoas que acabam marginalizadas, ou mesmo por já estarem a margem social, sua “única saída” é o trabalho com o sexo. Essas situações simplesmente existem, e não paramos para entender como isso é construído.  Mesmo num mundo cheio de inovações e novas maneiras de acessar informações, um mundo plural e diverso, ainda somos julgados através de um padrão arcaico.

Recentemente tivemos uma situação em que um quadrinho foi censurado durante a Bienal Internacional do Livro, através de alegações de “conteúdo sexual explícito”, e a cena retratada era apenas um casal de meninos se beijando. Muitos usam de uma certa conduta “moral” e prezando por algum tipo de “proteção contra obscenidades” para distribuir ódio, preconceito e julgamentos contra pessoas de determinadas orientações sexual, de profissões diferentes e de classes sociais diferentes. Mesmo depois de diversos movimentos ao longo da história, de campanhas que buscam sensibilizar e conscientizar, nós no encontramos nos dias atuais em uma situação em que um pretenso puritanismo busca censurar e criminalizar pessoas e situações.

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Um dos pontos chave é como a animação apresenta muito bem, uma das maneiras que essas ideias se transformam em verdades absorvidas pelas pessoas. A personagem fala sobre as lendas que ela cresceu ouvindo e lendo. E também como nessas histórias, ninguém como ela seria salva, e sim morta.

Os mitos nesse contexto servem de exemplo para o comportamento que passa a ser visto como o “correto” e para a moralidade de um grupo social. Esse é um padrão comportamental que sempre foi reproduzido ao longo do tempo. Mesmo em relação as nossas próprias histórias. Em algumas versões do conto de Odisseu em A Odisseiaele fica “refém” de Calipso, que usa do sexo para seduzir o herói de guerra e assim o manter afastado de sua jornada na volta para casa. Sempre que a história é repassada, a ênfase se volta para o pecado da luxúria, e como ele sucumbiu a “feitiçaria” da ninfa. 

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Apesar de possuir um panteão de deuses e alguns deles serem deuses do sexo, em Danmachi temos uma demonstração do mesmo apego puritano que vemos no nosso mundo. E assim como no anime, essas ideias que levam ao julgamento de pessoas com base em algo como a prática sexual, surgem das histórias que são compartilhadas coletivamente. As narrativas moldam nossas opiniões e nossos julgamentos de valor.

Haruhime, se mostra alguém tímida, e até mesmo frágil, mas muito prestativa e que apresenta muito conhecimento tanto sobre as lendas como também sobre o mundo. No entanto ela aprendeu também que perdeu seu valor junto de sua castidade. Em nenhum momento a “exploração sexual”  que ela sofre é apresentada como um problema, e sim apenas o sexo, e como a personagem se corrompeu ao praticá-lo. O mesmo é visto no nosso dia a dia, nós aprendemos que a sexualidade e a prática sexual são assuntos para não serem comentados, e mantidos longe das “pessoas de bem”. Mas ao mesmo tempo ainda mantemos uma cultura que sexualiza o corpo feminino em todo tipo de mídia, onde se gabar sobre a prática sexual é um padrão que define masculinidade e em que serviços de profissionais do sexo são comuns e necessários, e por muito tempo um rito de passagem para o homem. Essa relação que se torna altamente hipócrita foi construída, com o tempo, através das diferentes narrativas que foram repassadas a todos nós, mas acaba que não pensamos sobre isso. 

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É preciso ser ressaltado, que a personagem na história, não escolheu fazer parte daquela família, ou mesmo foi alguém que sempre viveu ali. Descobrimos ao longo dos episódios que ela foi enganada e então vendida como escrava, e devido a sua aparência frágil, foi designada para unicamente o trabalho como prostituta. — Existe aí uma pequena problemática sobre a retratação de uma personagem que é uma vítima e seu ponto mais baixo é como prostituta, essa mensagem acaba ressoando também, enfatizando como esse é o pior lugar em que se poderia estar, ao trabalhar com sexo. 

No Japão atualmente é proibido ter qualquer ato relacionado a prostituição e a exploração dela. A lei brasileira reconhece o trabalho sexual como uma profissão, não sendo crime, como muitos ainda imaginam. O crime existe na exploração dessa profissão por terceiros. Se tivesse que comparar e explicar, a Haruhime não fez nada de errado para se sentir culpada, ela não cometeu crimes, mas as pessoas que se aproveitaram dela, a enganaram e a forçaram a situação em que a encontramos sim. 

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Existe um movimento nacional que busca trazer luz aos problemas enfrentados por profissionais do sexo, principalmente esses que resultam dessa marginalização de pessoas com essa profissão. Enquanto escrevia, fiquei sabendo sobre a Gabriela Leite, que criou ONG’s para auxiliar mulheres. Foi uma militante que buscava o fim do preconceito contra prostitutas. Existe também uma discussão bem profunda sobre esse tema, e como ele está associado diretamente à discriminações contra a mulher. Internacionalmente existem várias pessoas que passaram a advogar sobre essa questão, e algumas palestras podem ser facilmente encontradas no Youtube 

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Isso que foi falado e apresentado na animação diz respeito a algo muito maior. A fala da personagem reflete não só a vida triste em que ela se encontrava, mas acentua em como é tratado o sexo, as prostitutas e as mulheres. Haruhime, enquanto personagem, é mais profunda que uma donzela a ser salva, mas não porque ela não é mais uma “donzela”; Mas sim por ela nos apresentar essa dualidade hipócrita da sociedade. Ter ela ali sendo sexualizada é “agradável” a todos, mas então a história vira e o ato sexual  passa a ser visto como impróprio, e as prostitutas como seres corrompidos que irão contaminar os heróis. Chega a ser assustador ver que esse mesmo comportamento acontece no nosso mundo. Pessoas subiram a uma situação de poder, começaram a censurar e julgar ainda mais pessoas que não estão dentro do seu padrão particular de moralidade.

O sexo é divino e impuro, e é retratado de diversas maneiras em diversas culturas e tradições escritas e orais, essa dualidade estranha precisa ser entendida e debatida. Não podemos mais permitir julgamentos vagos serem continuados. Esses conceitos que estamos acostumados a ver, vieram de um lugar especifico, de uma mesma versão da história que julga e criminaliza mulheres. E isso nos deixa na missão de tentar identificar esses estigmas que perpetuamos e tentar oferecer entendimento e empatia, ao invés de continuar um julgamento preconceituoso. Assim como Bell, que se viu sem palavras em um primeiro momento, mas tomou tempo para refletir e passar a combater o padrão nocivo ao qual ele estava exposto.

 

Bom, se você ficou com alguma dúvida, ou quer acrescentar algo estou inteiramente a disposição!

See You Later Elevator!

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