Girl’s Last Tour e a ingênua humanidade que vaga por esse incomensurável mundo

A humanidade certamente é a maior incógnita presente no mundo em que vivemos, pode ser um tanto estranho essa frase vir de um humano, porém, de algum lugar ela deveria vir. Na verdade, talvez, não haja ser melhor para dizer isso, do que um legítimo ser humano. Não que isso seja uma auto-crítica, tampouco uma reflexão profunda, entretanto, é estranho pensar que os mesmos que podem pensar e dizer isso, são aqueles que executam ações as quais precisam ser pensadas e ditas. Assim, pode ser que essa seja a singularidade mais enigmática do ser humano, ele é, ao mesmo tempo, o ser que sabe que sabe e o ser que pensa que pensa. Bom, eu nem sei mais sobre o que estou falando, aliás, meu nome é Pedro e essa é a minha visão sobre Girl’s Last Tour, um anime que, com certeza, tem muito mais a expressar sobre a humanidade do que eu.

©Girl’s Last Tour

Em meio aos restos de um mundo outrora próspero, onde os resquícios de vida terrestre já beiram a nulidade, as últimas pegadas marcadas neste pequeno planeta, que um dia já foi alcunhado de “Planeta Azul”, serão dadas por Chito e Yuuri, duas garotas que, simplesmente, são o suspiro final da curiosa, intrigante e efêmera espécie humana. Assim, envoltas ao finado mundo que herdaram, trajadas com uniformes militares, unidas a sua motocicleta e na companhia somente de uma a outra, vagam em direção ao ponto mais alto deste mundo, ao mesmo tempo, descobrem, dia após dia, a beleza da vida humana e todas as nuances que a cerca. 

Em suma, esse é um breve vislumbre de grande parte do que compõe a contemplativa, melancólica, e ingênua experiência proporcionada por este pequeno anime de, apenas, 12 episódios. Essa jornada pelos destroços de uma civilização engolida pela guerra, onde as marcas da destruição já se tornaram cicatrizes tão profundas e, portanto, irreversíveis, acaba revelando, de forma inocente, muito sobre o âmago de todo ser humano. Haja vista, acompanha duas jovens remanescentes deste findado mundo, dirigindo-se para o fim inevitável e, em seu caminho, provando, pela primeira vez, a existência humana.

©Girl’s Last Tour

Nesse sentido, o espírito ingênuo que emana de nossas protagonistas é fundamental para a reflexão e introspecção propostas. Isso ocorre, pois, devido ao contexto estabelecido, ambas nunca tiveram a oportunidade de desfrutar de uma vida “normal”, conviver com uma família, estar em uma sociedade, fazer amigos, gozar de tudo que a convivência humana proporciona. Por consequência, também, permanecem alheias a quaisquer pré-concepções e prejulgamentos que os demais seres humanos, eu e você, absorvemos diariamente, fazendo com que elas sejam regidas, unicamente, pelas próprias vivências, assim, fazendo deste, o elemento individualizador dessa viagem.

Acompanhar duas singelas existências descobrindo o mundo, ou o que restou dele, pela primeira vez, enquanto nós o redescobrimos, é simplesmente fascinante e instigante. Além do mais, essa particularidade, em especial, faz com que pequenos momentos cotidianos presentes nessa história, sejam, substancialmente, significativos e profundos. Tomar cerveja a luz do luar, comer um peixe as margens fluviais ou simplesmente esperar a chuva passar, tudo a partir desse ambiente, dessa conjuntura, possui um sentido a mais, uma noção mais ampla, uma reflexão diferente para nós, tendo como ponto de partida, a noviça e singular experiência dessas garotas. 

©Girl’s Last Tour

Importante ressaltar que, a causa maior por trás de toda tragédia existente aqui é, portanto, derivada dos atos “daqueles” que vieram antes, dos seres precursores daquele planeta, do legado que deixaram para essas duas meninas. Esses seres, construtores do apocalipse, podem ser interpretados, instintivamente no subtexto, como sendo nós mesmos, os indivíduos do agora, aqueles que detém a posse do leme do amanhã. Dessa forma, é como se Girl’s Last Tour estivesse nos questionando, de maneira sutil, porém incisiva, se esse é o mundo que nós queremos deixar para o futuro, um mundo onde “Chises e Yuuris” sejam obrigadas a viver de maneira semelhante ao triste modo como são representadas aqui.

Aliás, ainda que o anime contenha inúmeros elementos enigmáticos e uma atmosfera por vezes devaneadora, as condutas que precederam tal colapso não estão distantes de nosso presente, desta forma, servem de sustentação fundamental para a interpretação anteposta, pois, seguramente, as ações humanas de hoje, nossas ações, futuramente serão decisivas quanto a irreversibilidade, ou não, da concretização de um futuro semelhante a este.

©Girl’s Last Tour

Visto isso, acaba por ser profundamente melancólico pensar em algumas das alegrias corriqueiras de nossa vida: poder apreciar a natureza, ter comida sempre a disposição, ou até mesmo possuir um lar, alegrias essas que, para essas garotas, são como sonhos inimagináveis. Ainda mais, por razão de desconhecerem qualquer mundo que não seja aquele, assim como, nunca jamais terem experimentado o mundo como nós o conhecemos, pode, de fato, nos acarretar um incômodo (proposital) devido a divergência gritante entre as visões de mundo das protagonistas e as nossas. Criando, por meio deste, uma tendência a olharmos para elas a partir de uma existência trágica, entretanto, essa visão é efetivamente invertida, visto que a dupla faz questão de “viver a vida” com generosa sinceridade, mesmo que conscientes de seu fim, circunstância pela qual podemos ver genuína beleza em sua caminhada e em seu irrevogável desfecho. Ouso mais, a cada sabor amargo de desesperança dado por aquele mundo e a cada ultimato que nos é imposto, elas nos presenteiam com um sabor doce, com uma vida harmoniosa, com um novo sorriso e uma nova descoberta. Por fim, sentir Girl’s Last Tour é quase como viver na linha tênue entre esperança e desesperança quanto ao que ocupa o cerne humano.

©Girl’s Last Tour

Ainda acima, é surpreendente e paradoxal que a mensagem de uma obra pós-apocalíptica, cercada de destruição e a beira da extinção da vida terrestre, seja de que, a vida é bela! A inocência, ingenuidade e simplicidade dessas personagens nos contagia, nos faz rir, nos emociona, nos faz viver, ou melhor, reviver a vida. Uma vez que, em minhas presunções, a humanidade é composta por duas facetas de igual valor. De um lado os dilemas mais complexos e os questionamentos mais intensos, de outro, as vivências e sensações mais cotidianas e simples. Desse modo, em virtude de um cunho existencialista tocante, a obra consegue balancear, perfeitamente, esses dois lados.

©Girl’s Last Tour

©Girl’s Last Tour

Dentre os capítulos, vários temas são levantados e distribuídos, de maneira orgânica, pela estrutura narrativa episódica. Contudo, vale ressaltar os que dizem respeito a guerra; a beleza da natureza; a existência, ou não, de uma entidade divina e sua função entre os homens; ao desespero; aos aspectos culturais e as temáticas ligadas à vida, sua essência, sua definição, seus motivos, seu fim e as especulações de algo além. Para mais, também merece ser evidenciado certo olhar cético pelo qual determinados temas são abordados, visto que a ausência de respostas definitivas e a presença de incertezas para com eles, caracterizam uma sofisticação temática mais apurada. Assim, decorrente a esta virtude, o espectador se fragmenta em seus próprios julgamentos, dado que, simultaneamente, duas perspectivas antagônicas são expostas, uma recaindo perante o modo de viver dessas garotas e a outra perante o mundo a qual estão imersas, porém, a conclusão que você internalizará só depende de seu juízo individual. Dessa forma, enriquecendo o fator introspectivo e aumentando o mar de pensamentos ao qual você poderá ser lançado ao fim de cada ato.

Sem sombra de dúvida, este é um trabalho que diz e significa muito, no entanto, esses não são seus únicos valores. A atmosfera é absolutamente incrível, ela abrange, por intermédio da produção, toda a acepção sentimental auferida as particularidades exteriores as personagens. Perpassando todo o cenário, desde a paleta de cores, cheia de cinza, preto e branco que dão uma sensação de morte ao ambiente, bem como a escolha estética brutal e desconforme das estruturas presentes nos cenários, até a iluminação tão funcional que chega a ser um elemento narrativo. Deste modo, esses componentes retificam a caminhada retratada a priori, caminhada esta que, tem como finalidade, demonstrar a solidão e desesperança que estão pintadas no espaço.

©Girl’s Last Tour

©Girl’s Last Tour

Dicotomicamente, indo na contramão da maior parte do tom ditado pela atmosfera, está a construção externa (e interna) das protagonistas. Moldadas por traços simplistas e minimalistas, elásticos e irregulares, a fim de, destacar, intencionalmente, a incompatibilidade entre as garotas e o mundo. Utilizando-se, de maneira notável, do contraste entre as opressivas, intimidadoras e grandiosas construções e as simples e frágeis protagonistas. Aspecto que, consequentemente, consegue transpor, com sublime eficácia, toda essa linguagem na tela.

©Girl’s Last Tour

Agora, aprofundando nas individualidades das personagens, nossas âncoras emocionais e humanas aqui, podemos dizer que, Chito e Yuuri possuem uma dinâmica divertida e cativante, com suas personalidades contraditórias, todavia, complementares. Chito é mais equilibrada, medrosa e sensata, sempre valorizando o conhecimento e a calma; na presença de dilemas mais complexos, acaba por personificar a racionalidade humana. Em contrapartida, Yuuri representa uma excentricidade desajeitada, sempre espontânea e inconsequente, por isso, finda, eventualmente, em personificar a irracionalidade do ser humano. Assim, o vínculo simples e intenso que criamos com essas personagens, fundado na interação entre as duas e na intimidade com seu cotidiano, nos leva a sermos contagiados por toda chama da vida que as perpassa, para que, mesmo nesse cenário tão efêmero, se tenha esperança e otimismo.

©Girl’s Last Tour

Aliás, de mesma forma, não pode-se deixar passar em branco a trilha sonora e a direção, alicerces vitais para a eficiência plena de todo conteúdo. A primeira, simplesmente porta uma beleza incomensurável e complexidade ímpar, tendo como demais méritos um encaixe cirúrgico, exímia utilização do silêncio e faixas icônicas como “Seijaku no Tabiji”, “Hitomi ni Utsuru Keshiki”, “Owari no Uta” e várias outras, uma vez que, o disco inteiro é sensacional. Além disso, a direção dispõe de tomadas amplas e contemplativas que formam um encaixe de coesão perfeito ao se atrelarem a atmosfera e a fotografia, sem falar dos particulares planos subjetivos e planos detalhe, que, denotam, em sua totalidade, uma linguagem cinematográfica aguçada. Logo, trilha sonora e direção, unidas a todo o resto, constituem essa sensacional experiência sensitiva e reflexiva.

       

Por fim, após iluminar todos esses pontos que, de forma holística, compõe essa criação incrível, encerro convidando aqueles que estejam abertos a novos ensaios singulares, a experimentar Girl’s Last Tour. Pode não ser uma tarefa fácil para alguns, pois, foge das fórmulas narrativas típicas da atualidade, ainda assim, sugiro que, do mesmo modo pelo qual Chito e Yuuri estão abertas a experimentar o mundo, você esteja aberto a ter essa nova experiência, e quiçá, como eu, “reviver a vida” por meio dessa obra. No fim, Girl’s Last Tour e a jornada que essas garotas nos concedem, podem ser traduzidas em um pequeno, contudo, esplendoroso ode a vida e a morte, que, em minha opinião, todos deveriam conhecer.

©Girl’s Last Tour

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