Kengan Ashura – Uma Paródia da Violência na Sociedade?

Kengan Ashura é um anime  de artes marciais da Netflix que acompanha uma onda crescente de obras do gênero dentro do serviço de streaming. Assim como Baki, temos uma história que funciona mais como “desculpa” para vermos lutas até a morte entre personagens que usam de estilos bem variados de combate. A animação 3D, que é incomoda a todos em uma primeira olhada parece até mesmo ter virado estilo.

Vale mencionar que a adaptação foi um pedido dos fãs do mangá, conforme noticiamos aqui . A obra é uma produção do estúdio Larx Entertainment com a distribuição pela Netflix.

Mas como é a obra afinal?

Sinopse:

Desde o período Edo do Japão, existem arenas de gladiadores em certas áreas. Nestas arenas, donos de negócios ricos e comerciantes contratam gladiadores para lutar em combate desarmado, onde o vencedor leva tudo. Tokita Ouma, apelidado de “Ashura”, se junta a essas arenas e destrói seus oponentes. Sua habilidade espetacular para esmagar seus inimigos chama a atenção dos grandes empresários, incluindo o presidente do Nogi Group, Nogi Hideki.

A obra teve sua segunda parte lançada em 2019, e pode ter continuação ainda esse ano. (Fique atento as notícias aqui no site)

Enquanto assistia o anime algumas coisas saltaram a mente:

Um Paródia da Violência.

Como já disse antes, a história do anime em si é quase uma desculpa para vermos lutas até a morte. Nesse mundo em que as empresas decidem o futuro através de lutas de vale tudo, alguns desses lutadores são profissionais em busca de sobreviver ou se provar, enquanto outros estão à procura da própria luta, de instantes de adrenalina que só o combate sem restrições propõe, ou ao menos isso parece ser arranhado de vez em quando durante os episódios. O protagonista tem uma aparente história de vingança, que não é tão explorada assim. E a maioria dos coadjuvantes tem bons momentos repletos de alívios cômicos.

Levando isso em consideração, me pareceu diversas vezes que o anime tentava passar essa visão exagerada das coisas, como uma forma de parodiar o que temos hoje em dia. O sucesso de lutas e campeonatos de artes marciais mistas é uma prova de como, enquanto expectadores, estamos sempre ansiando por essa violência.

O anime inteiro é praticamente um ‘arco de torneio” que já vimos em outras obras. E esse tipo de formato, apesar de repetitivo, é sempre um sucesso. O que leva a indagar o quão ansiosos pelo combate nós somos?!

Durante a obra, temos abordagens sobre estilos de lutas, e como seus praticantes ali, evoluíram ou mudaram algo dentre deles, para se tornarem mais letais. O mesmo não está tão distante da nossa realidade, se levar em consideração que diversos lutadores do UFC, “aperfeiçoam” fundamentos específicos de algum estilo para que se saiam melhor durante a luta. Claro, no anime temos uma versão super exagerada disso, mas esse “esvaziamento” da filosofia da luta, em favor do combate e subjugação do oponente ainda está presente na nossa realidade.

A violência como “Modus Operandi” e não como recurso!

A violência, o combate, a luta, sempre estiveram presentes na vida humana, alguns especialistas afirmam que só estamos hoje aqui, por termos subjugado e até mesmo extinguidos as outras variações de “homo” na espécie, durante nossa evolução. Desde tempos muito antigos, a luta e o aperfeiçoamento dela se mostrou uma característica necessária e muito bem recompensada. Conforme as sociedades foram se organizando, mais e mais se usou do “poder sobre o outro” para manter qualquer status desejado.

Filme Braveheart – Coração Valente

O próprio questionamento do uso de violência, é algo recente na história humana. Durante muito tempo o abuso através da força era completamente comum. Por mais civilizados que afirmemos ser hoje, voltamos a esse comportamento de recorrer a fúria como primeiro recurso. Mais uma vez, ressalto como as diferentes modalidades de lutas e as artes marciais trouxeram um aprofundamento completamente novo a ideia do combate. E muitas dessas, prezam exatamente pela não propagação da violência.

Filme – The Last Samurai – O último samurai

Entretanto, ao se observar o todo na nossa realidade, o uso real da violência se tornou o “modus operandi” para tudo. Qualquer discussão, qualquer controvérsia, qualquer ação em busca da “justiça’ usam primeiro da violência. Não atoa começamos o ano com líderes de nações poderosas incitando guerra, e causando mortes.

 

Quando se pensa em ações policiais, principalmente no Brasil, não imaginamos nada além de brutalidade e agressões. Mesmo quando o povo protesta, de forma pacífica, o abuso e uso extremo de violência se manifesta como primeira resposta.

 

Esvaziamos nossas ações de sentido? Banalizamos a violência a ponto de ela ser considerada comum e necessária? Voltamos a acreditar que unica maneira de se conseguir algo é através da violência?

Explicando o que andei pensando.

Os tópicos anteriores, surgiram em minha mente enquanto assistia ao anime, mas não acho que exista relação direta entre “obras violentas incentivando a violência” ou mesmo que as artes marciais e o “ufc influencia a violência nas pessoas”. Pelo contrário, acho que o anime faz bem ao retratar um nível gráfico e exagerado, e oferecer contexto. Contexto esse, de que aquelas pessoas ali não são boas, suas ações extremas não prezam por nada bom, e elas não são exemplos.

Além disso, eu particularmente virei um fã recente de lutas, e de torneios como o UFC e o asiático ONE. Principalmente, porque dentro desses campeonatos, existem exemplos de pessoas incríveis que carregam a filosofia da arte marcial, e a ética do esporte. Existem também pessoas como Ronda Rousey, que abriu uma discussão sobre as dificuldades desse meio, sobre as inseguranças e os problemas que acarretam viver disso. Esse tipo de coisa, traz de volta a humanização da luta, trazendo também todo o aprofundamento que parecia perdido num primeiro olhar.

Concluindo…

Diversas vezes aqui no texto, eu usei a palavra “violência’ como sinônimo para os combates, lutas e artes marciais; mas afirmo que em nenhum momento foi para diminuir ou menosprezar o esporte nem a prática. E ainda compactuo com, e cito a Doutora Paula Rondinele, em um artigo que ela defende que as lutas devem ser ensinadas nas escolas, cumprindo o as normas dos PCN (Parâmetros Curriculares Nacionais) que incentivam o ensino de lutas dentro da disciplina de Educação Física.

“…Enquanto algumas pretendem derrubar o adversário, outras procuram a imobilização e umas até o deslocamento do oponente de uma área delimitada. Ou seja, você pode perceber que nenhuma delas tem a violência como finalidade.” – RONDINELLI, Paula. “Luta não é violência: a importância das lutas nas aulas de Educação Física”; Brasil Escola.

Por fim, reafirmo, que é importante refletir sobre o que consumimos, mesmo obras que parecem totalmente criadas para o fácil entretenimento, podem despertar observações e criticas profundas dentro de todos nós. Alguns dos assuntos comentados aqui, foram propositalmente apenas citados, para que você decida buscar por eles. Mesmo que eu já esteja esperando que faça perguntas para que eu possa falar ainda mais sobre toda essa questão de violência na sociedade vs a filosofia das lutas.

“A coisa mais importante é ter espirito de luta” – Telakun – Campeão Mundial de Muay Thai e Sobrevivente de Câncer

Um dos aspectos mais interessantes, ao menos para mim, foi chegar a reflexão de que a violência é um traço da nossa história, e que através das lutas ela foi transformada em esporte, filosofia de vida e objeto de estudo. E num mundo realmente justo e correto, a força bruta só deveria ser usada nesse contexto, nunca contra os mais fracos e nunca contra inocentes.

Eu não sou praticante de nenhuma luta, e se você aí for, não deixa de falar sua visão ou ao menos começar a refletir sobre. Quem sabe numa próxima a gente não faz uma entrevista e tudo.

No mais, vamos sempre aproveitar a complexidade humana.

See You Later Elevator!

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