NO GUNS LIFE – HARD-BOILED E CYBERPUNK?

Oi, Eu sou o Bruno, e quero trazer uns comentários sobre alguns aspectos de NO GUNS LIFE.

O mangá de Tasuku Karasuma começou a ser publicado em 2014 na revista ULTRA JUMP da editora SHUEISHA, conhecida por publicar obras seinen. A adaptação em anime é uma produção do estúdio MadHouse, e estreou em 10 de outubro no Japão.

 

Sinopse:

Depois da guerra, existiam muitos “Extends” na cidade, que eram pessoas que tiveram os corpos modificados para serem transformados em armas mortais. Inui Juuzo é um deles, e  não possui lembrança alguma da sua vida antes de ter a sua cabeça transformada em uma arma. Estranhamente, a sua arma em formato de revolver é desenhada para que alguém possa puxar o gatilho. Juuzo sobrevive solucionando casos envolvendo extends na cidade.

Em NO GUNS LIFE, temos esse mundo em que pessoas foram alteradas com partes mecânicas para lutar em uma guerra, e com o tempo essa prática se tornou comum, e apenas uma grande corporação detém o controle sobre esse tipo de modificação. Nós temos um ambiente sujo e opressivo, com uma sociedade marcada pelo uso da tecnologia, e o nosso protagonista além de possuir seus dilemas tenta trabalhar para ajudar as vitimas desse lugar caótico.

A característica que mais salta aos olhos sobre a história é seu personagem principal, que possui uma arma no lugar da cabeça. O modelo é algo como um revolver antigo, em tamanho aumentado, e que pode ser operado apenas por outra pessoa. Essa é uma marca, ao que tudo indica, da condição dessas pessoas durante a guerra desse mundo, em que aqueles que passavam por essas alterações eram tidos apenas como ferramentas a serem usadas e descartadas.

Minha primeira impressão ao assistir o anime, foi de que ele era algum tipo de experimentação com o gênero Cyberpunk. A história apresenta esse mundo problemático e obscuro numa espécie de futuro que não é tão brilhante. Em tela percebemos as “peças” mecânicas que muitos usam, por conta disso não pude deixar de remeter automaticamente a esse estilo, no qual geralmente os personagens utilizam os “aprimoramentos corporais”.Esse mesmo parece estar em alta recentemente, e pode ser visto no jogo que será lançado Cyberpunk 2077 e no filme Alita Anjo de Combate, que foi baseado em uma obra de mangá japonesa.

Personagem Baseado em Keanu Reeves em Cyberpunk 2077

O gênero cyberpunk é um produto da Literatura de Ficção Cientifica, é um subgênero que se tornou bastante popular principalmente nos anos 80, com o premiado livro Neuromancer de Willian Gibson. Outros nomes também foram fortes formadores desse “estilo”, como é o caso do filme Blade Runner que ajudou a popularizar, de certa forma, o visual cheio de Neon, carregado com visuais excêntricos e uma atmosfera opressora.

Filme Blade Runner de 1982

Apesar de existirem divergências, segundo os teóricos literários, quanto a como classificar e elencar as características que definem uma história cyberpunk, alguns traços são predominantes o suficiente para servirem de guia. Entre os exemplos temos: uma visão pessimista do avanço tecnológico, a dominância de uma grande corporação ou grandes empresários sob a sociedade, e a dependência do uso da tecnologia, seja para próteses que melhorem o corpo humano ou como elementos que não podem mais ser separados da vida cotidiana.

Capa Brasileira de Neuromancer

Assim, eu pensei que essa obra estava se propondo a experimentar com a estética do subgênero da ficção cientifica e mesclar ele com outros recursos e influências narrativas. No entanto ao pesquisar sobre a mesma, eu descobri uma entrevista, relativamente interessante, em que Hideo Kojima fala do seu apreço pelo mangá de Karasuma, e que ele o enxerga como algo que pode mostrar para o grande público, e o quão bom pode ser uma história do gênero “Hard-Boiled”.

Retirado do site Comic Natalie

Com isso me deparo com essa definição para a obra que eu já achava carregar influências.

Mas o que é esse Hard-Boiled?

Segundo o Prof. Dr. Julio Jeha, em seu artigo: Ética e estética do crime: ficção de detetive, hard-boiled e noir.

“Em vez da aristocracia rural e dos moradores de vilas inglesas onde todos se conhecem, a literatura criminal norte-americana que atende pelo nome de hard-boiled retrata a população das metrópoles, seus gângsteres e suas mulheres sedutoras, sua polícia e seus políticos corruptos.”

E ele conceitua também a própria variedade do romance policial:

 “As três formas principais de literatura criminal – ficção de detetive, hard-boiled e noir – se caracterizam por princípios éticos e estéticos bem definidos. Todas se desenvolvem num contexto de urbanização e industrialização típico das sociedades europeias e norte-americana de fins do século 19 e início do 20. A ficção de detetive nasce nos contos de Poe, com um investigador de poltrona que resolve um enigma por meio de notícias de jornais, a pedido de um chefe de polícia. Após a Primeira Guerra Mundial e a quebra da Bolsa de Nova York, autores e leitores deixam para trás histórias em que a violência é apenas um jogo de salão e partem em busca de narrativas duras e velozes, com detetives trabalhando ao arrepio da lei: a ficção hard-boiled. Dela se origina a ficção noir, fundamentalmente pessimista, em geral sem detetive e cujo protagonista é um fracassado, quando não um criminoso, que tenta sobreviver nas trevas morais e urbanas”.

Logo, em NO GUNS LIFE, temos um dos famosos gêneros ou evoluções narrativas da ficção policial sendo mesclado com o sci-fi, criando esse estilo que une aspectos tão cativantes de cada um desses tipos de histórias. Como nas clássicas histórias de detetive, Juuzo possui seu código moral e tenta a sua maneira combater as injustiças do sistema corrupto. Como um bom sci-fi a presença da tecnologia na vida humana influencia diretamente em como a sociedade se constrói e cria suas hierarquias. E claro como em toda boa obra existe uma exploração dos personagens que possuem complexidade e atitudes cabíveis, bem como um mundo que necessita ser visto e entendido.

O autor brincou bastante até mesmo na capa do mangá e do anime, sobre como essa era uma obra referenciava diretamente elementos do hard boiled como a arma, fumaça e bebidas. No anime temos momentos em que o protagonista fala diretamente que não aprecia bebidas, mas é confrontado sobre seu jeito de agir e também sobre o seu comprometimento em salvar uma criança. Ele não é um detetive egoísta, e os aspectos humanos assim como a compaixão e a necessidade de fazer algo sempre se sobressaem.

Eu ainda enxergo possíveis referências ao Cyberpunk em toda a estética desse anime. Mas a fusão com o estilo detetivesco é algo bem evidente. Juuzo é realmente um protagonista de ficção Hard-Boiled, e esse mundo me parece uma perfeita distopia cyberpunk.

Mas o que você enxerga em No Guns Life?

Assim como o mangá tem cativado muitas pessoas como o próprio Kojima, eu espero que o anime produzido pela Madhouse gere seu próprio impacto, e seja uma boa apresentação para os que não estão familiarizados com o estilo e que também faça jus as obras que marcaram outras gerações. Na entrevista, que citei, foi mencionado como a personalidade proativa e inconformada de Juuzo é algo que víamos mais antigamente, e apesar de não discordar diretamente, fiquei curioso para descobrir quais outras obras possuem esses componentes que marcam tanto.

Se você enxerga outras referências no anime, não deixe de indicar, e claro vamos ficar atentos as novas evoluções ou mesmo homenagens a gêneros mais antigos que irão surgir.

Para conferir a entrevista em inglês de Hideo Kojima ao Comic Natalie: Clique Aqui.

Para ler o artigo em português sobre os estilos do romance policial: Clique Aqui.

Lembre-se  Assista Animes e Busque Conhecimento.

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