Review de produção – Kaguya-sama: Love is War – Olhando por um lado técnico

Nem só de Kimetsu no Yaiba e Mob Psycho 100 viveu o ano de 2019. Para falar a verdade, Kaguya-Sama: Love is War representa bem mais a normalidade (Ou nem tanto?) das produções japonesas do que esses dois animes anteriormente citados. Ela é modesta em vários sentidos, então se você espera que Kaguya tenha cortes de animações que vão te deixar babando a cada 15 segundos, você está no anime errado. Por outro lado o anime têm várias características que eu considero bastante importantes na hora da produção: criatividade; uma direção acima da média e um amor pelo material original. Então, eu sou o Guaraná e vamos nos aprofundar mais nas mentes por trás de um dos melhores animes de 2019.

Eu comecei a ler o mangá de Kaguya em meados de 2016 e eu já tinha uma noção de que a obra tinha tudo para se tornar um peixe grande no mercado. O estilo de escrita de Aka Akasaka é de longe um dos melhores no gênero; começou colocando as clássicas esquetes episódicas normais em comédias românticas e quando chegou em um ponto onde isso poderia vir a se tornar repetitivo, começou um desenvolvimento linear e progressivo  que vem ditando o ritmo até o momento mais recente do mangá. Agora, na adaptação para anime a missão ficou para um diretor bastante experiente e com certa bagagem em animações focadas em comédia, e com uma criatividade e talento acima da média para dirigir uma obra de tanto peso quanto Kaguya.

Mamoru Hatekeyama (Também conhecido como Shinichi Omata) foi provavelmente a melhor escolha pra direção da série.  Eu não fui lá o maior fã da história e do rumo que  Record of Grancrest War teve, mas a qualidade do storyboard do diretor e da equipe que estava com ele me fez abrir o olho em relação a futuros trabalhos. Eu sabia da sua capacidade desde seu fenomenal trabalho em Rakugo Shinju e também pelo seus tempos de Shaft onde ele já havia demonstrado que tinha um talento pra comédia em Arakawa Under the Bridge, que inclusive já traz uma das características do seu storyboard tona: Os close ups (As vezes com rotação) que conseguem elevar a expressão e emoção de cada personagem, principalmente usando partes do corpo como boca, olhos, mãos, pés e pernas.

© Kaguya-sama: Love is War – © Arakawa Under the Bridge

O que mais me fascinou na direção é o amor e o respeito que a equipe do anime tem pela obra original. A parte boa é que diferente de outras obras do gênero o anime de Kaguya não é um total copypasta da história original, durante os últimos anos eu venho sentindo que cada vez mais os diretores dos animes de comédia romântica vem ficando com medo de tentar coisas novas na adaptação, talvez por medo de acabar mudando algumas mensagens que o autor original queira passar, já que cada um tem sua interpretação diferente em histórias com carga emocional ou comédia. No caso de Kaguya a direção mantém a essência da obra, mas Hatekeyama em si sabia que caso fizesse uma versão totalmente igual do mangá tanto em termo de perspectiva quanto de estética, o anime não seria nada demais e mais valeria pros fãs e novos fãs da obra continuarem atrás do material original, até tiraria a perspectiva de uma possível continuação.

O que quero dizer é que Hatekeyama conseguiu colocar suas próprias características como diretor, mas sem tirar a essência de Aka Akasaka daquele lugar. As cenas onde ele usa Kagenashi uma técnica utilizada pelo famoso diretor Mamoru Hosoda onde se tira a sombra do design dos personagens para tentar demonstrar mais emoção funciona muito bem uma obra onde as expressões faciais e corporais muitas vezess ditam o ritmo da cena. Além disso outra característica visual que eu gostaria de destacar são as cenas onde ele usa os fundos sem background ou com diferentes cores para elevar ainda mais a importância de tais  expressões corporais.

© Kaguya-sama: Love is War

Provavelmente você deve estar pensando que Kaguya é um anime apenas com boas idéias visuais e um storyboard acima da média, não é mesmo? Bom, é verdade que o talento da direção com o uso de diferentes técnicas visuais se sobressai na maior parte do tempo, mas isso não significa que o anime em si não tenha seus momentos na questão animação. As cenas animadas por Hidekazu Ebina, ajudaram a elevar ainda mais a qualidade da história; eu já tinha visto um pouco do trabalho do animador durante Yu-Gi-Oh! Arc V e em Fate/Apocrypha. Durante o episódio 5 ele animou a sequência em que Shirogane treina voleibol e a cena toda por si não só traz uma reinterpretação do trabalho de Akasaka através da boa animação mas traz um tom ainda mais cômico para a cena. É o resultado de um ótimo trabalho entre direção e animador; Takashi Torii é outro animador que não pode deixar de ser citado, a cena em que ele animou Kaguya correndo de um jeito mais solto é hilária e da a impressão de que Ishigami está sendo perseguido por um monstro, isso apenas prova que mesmo animadores de cenas de ação podem ter um grande destaque e trazer vantagens muito grandes pra animações com foco em comédia.

© Kaguya-sama: Love is War

E já que estamos falando de sequências bonitas e bem animadas, acho que chegou a hora de falarmos da abertura e dos encerramentos de Kaguya. A opening cantada por Masayuki Kazuki que também é conhecido por sei o rei das musicas românticas no Japão combina bastante com a vibe que a opening tenta passar, apesar dos elementos de filme de espião como 007 se mostrarem presentes o maior destaque ainda vai para o trabalho de efeitos visuais do estúdio Graphinica do diretor da opening Eiko Hirayama o efeito de calendoscópio foi incrível e combina bastante com a ideia psicodélica e com o ritmo anos 80 que a música tem. No encerramento eu dou destaque para o trabalho de Nichika Oono que animou toda a ending sozinha e com pequenas correções de alguns membros mais experientes. A ending inteira demonsta bem o que é a personalidade de Kaguya e a sua visão sobre o romance já que a garota parece ser alguém que gostaria que sua primeira experiência no amor fosse algo semelhante a um conto de fadas. Na parte técnica o destaque vai mesmo para boa animação no avião (sempre o pé no saco de se animar) e para o design que tem um sombreamento diferente do resto do anime.

© Kaguya-sama: Love is War

Mas o maior destaque ainda acaba indo pro encerramento do episódio 3 onde tivemos a famosa dança da Chika no final do episódio. O vídeo rapidamente viralizou e agora já da para dizer que foi o encerramento com maior popularidade no ano de 2019. Durante 1 minuto e meio nós temos Chika fazendo várias refêrencias que nem mesmo estavam no anime e apenas os fãs mais hardcore do mangá provavelmente notaram. O segmento inteiro é animado em Rotoscopia, uma técnica que se baseia em usar filmagens reais e transforma-lás em animação e dá para dizer que o uso de rotoscopia em Kaguya foi um dos melhores nos últimos tempos, as vezes a rotoscopia é tão mal feita que faz parecer com que várias partes do corpo pareçam entidades separadas e o resultado final é bem estranho, o crédito de tudo isso vai para Naoko Nakayama um ex animador da Kyoto Animation e que eu espero que apareça mais uma vez na segunda temporada do anime.

Eu realmente estou extremamente ansioso para a segunda temporada de Kaguya, a partir de agora a história deve tomar um rumo com maior carga emocional e com uma progressão ainda maior na história. Eu gostaria muito de ver Kei Oikawa retornando e dirigindo mais episódios já que ele tem uma capacidade absurda de trabalhar comédia com carga emocional como foi o caso com Hinamatsuri mas é mais provável que ele retorne para o estúdio feel para dirigir a terceira temporada de Oregairu. Mesmo assim, acredito que Hatekeyama e o resto de sua equipe são mais que o suficiente para lidar com a tarefa que é adaptar mais uma temporada de Kaguya. Ficamos por aqui, e até a próxima análise.

Obs: Vários dos links desse texto são do site Sakugabooru então vão lá e deem apoio ao maior depósito de animação tradicional do ocidente!
Obs2: Lembrando que n[os também temos um podcast sobre Kaguya-Sama: Love is War

Pedro Guarani

Tenho 21 anos de idade, sou apaixonado pela parte técnica da animação japonesa. Escrevo sobre animação, enquanto tento engolir o fato de que meu melhor amigo me trocou pela namorada.

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