Beastars – O espelhamento do nosso mundo

Oi eu sou o Bruno, e precisamos falar sobre Beastars, como o anime consegue realizar um verdadeiro espelhamento do nosso mundo e seus preconceitos.  Vamos então dialogar sobre como o mundo desses animais não é tão diferente do mundo dos humanos.

Beastars

Beastars, mangá de estreia da Paru Itagaki, filha de Keisuke Itagaki (autor de Baki), ganhou bastante notoriedade desde seu lançamento concretizando essa popularidade com prêmios e claro, sua adaptação em anime que já tem uma segunda temporada confirmada. O anime tem produção do Estúdio Orange e parceria com a Netflix, que faz a transmissão mundialmente.

Nessa história, acompanhamos animais antropomorfizados que convivem em uma sociedade muito semelhante a nossa. O protagonista é um lobo chamado Legosi, que se vê apaixonado por Haru uma coelha branca. De certa forma, temos Zootopia (animação de 2016) levada a sério!

Zootopia

Aqui, apesar das aparências, não se trata de uma sociedade perfeita. O mundo de Beastars é na verdade dominado por uma tensão constante entre as diferentes espécies. Os seres desse lugar anseiam pela força e poder individual, nomeando sempre um animal que será a “estrela” que pode liderar todos os outros; daí o Beastar (Beast + Star) do título.

Em diversos momentos o anime nos faz esquecer que ele começou com um assassinato, onde um aluno herbívoro foi morto por um carnívoro.Entretanto nada muito sério foi feito a respeito, como se esse fosse um episódio que eventualmente fosse acontecer, pois até mesmo já foi “comum” no passado, se tornando surpreendentemente mais tolerado no presente.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Como disse antes, a história explicada até aqui, não diz ainda todos os locais pelo qual o anime passa. Logo ao terminar de assistir e refletir sobre mensagens que pudessem ser transmitidas, me vi pensando que uma das contribuições dessa obra era o justamente o reflexo do nosso mundo.

Beastars

Beastars é uma obra que consegue servir de metáfora social animada pra diversos assuntos que parecem ser difíceis de tratar. Nesse sentido, a obra consegue ser uma boa maneira de exemplificar o racismo.

Racismo?

Um dos assuntos mais difíceis de lidar nos últimos anos é sem dúvidas a questão de como existe um racismo estrutural na nossa sociedade. De que o nosso corpo social hoje, ainda permite muitos comportamentos racistas. Sob o mesmo ponto de vista, há também uma negação de fatos e da nossa história, uma história sangrenta e sem dúvidas repleta de injustiças que deixou marcas severas em gerações e mais gerações.

“Cotas Estudantis são injustas”, “racismo é vitimismo”, “preconceito é mimimi” e até “racismo reverso”, essas e outras ideias se tornaram falas comuns nos últimos anos, e primordialmente partem do mesmo local: “se somos todos iguais, não existe racismo” ou “racismo é coisa do passado não existe mais”. De fato, essa é a raiz de tudo, pois para muitos essa igualdade já existe, mas ao olhar atentamente isso está bem longe de ser verdade.

Constantemente vemos reportagens sobre crimes raciais, e esses são só os casos que decidiram noticiar. O negro nunca teve as mesmas chances, e a história revela essa desigualdade assim como a registra até o presente.

Assim, como alegar que somos iguais se desde o início existe um abismo que separa essas pessoas?

 

Como Beastars fala disso?

Essa sociedade de animais conta uma história, a organização social e os dilemas das espécies que encontramos falam muito por si só. De acordo com perfis e arcos de alguns personagens, ficará mais claro, como esse ambiente de animais, acaba fazendo o espelhamento de alguns dilemas raciais humanos.

Beastars

© Paru Itagaki

 

“Louis o Líder Herbívoro/Negro”

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Em determinado episódio um aluno carnívoro tenta atacar Louis, um dos personagens que acompanhamos no anime. Herbívoro, mas diferente de outros, ele é imponente, líder do grupo de teatro e o mais próximo a se tornar a próxima “estrela” desse mundo. Assim é esse “poder” que Louis tem que o tornou alvo dos carnívoros, que passaram a sentirem-se “injustiçados”, ou mesmo tirados do seu “lugar de direito” na dominância do mundo.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

O simples fato de ser um herbívoro, faz dele inferior na mente desses outros. Como resultado por ainda assim ter tanto destaque, Louis incomoda muito certos carnívoros. Aqui ele espelha o “negro em destaque”. A pessoa que se revestiu de todos os direitos então “ousou” agir com base neles, mas ainda assim acaba por ser mal visto.

Na música “Kanye West da Bahia“ de Baco, um rapper baiano que ganhou muita notoriedade no cenário da música. Temos esse perfil descrito na letra:

“Eu não abaixo a cabeça, não vou te obedecer

Ser preto de estimação não, eu prefiro morrer”

E mais na frente:

Todo líder negro é morto, cê consegue entender?

Os versos chegam a condizer perfeitamente com a própria história do personagem no anime, que foi desde criança aprisionado e tratado como simplesmente carne. Todavia, um dia teve a oportunidade de confrontar essa realidade, eventualmente se tornado quem encontramos: um “Líder” admirado por muitos analogamente odiado por outros.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Contudo, esse perfil não é novidade na nossa história, indo desde figuras importantes como Malcon X e Martin Luther King, até grandes artistas de hoje como o próprio Baco e Djonga; vemos que quando a pessoa negra chega em uma posição de destaque, ou liderança, eles passam a ser temidos e odiados, por pessoas que alegam que eles não pertencem ali.

Logo o espelhamento com nossas vidas fica evidente: a pessoa negra dentro da nossa sociedade deve ser dócil e prestativa, além de estar sempre prezando pela “excelência”, pelo contrário, todo tipo de estereótipo, preconceito e discriminação serão atirados contra esse indivíduo. Assim como no anime, mesmo munido da razão e agindo conforme as regras instauradas, ainda se corre risco de vida.

Haru a Coelha Branca

A personagem demonstra perfeitamente diversas condições a quais as mulheres são submetidas na nossa sociedade. Além de termos um mundo que persiste em pregar a competição entre as mulheres, temos o estereótipo da fêmea que seduz e ludibria o macho; Tirando qualquer poder de escolha dele, com o propósito de culpar completamente aquela que passa a ser taxada de “puta”.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

No anime, a personagem foi procurada logo após beijada por um coelho que já estava em um relacionamento mas tinha desejo por ela. Como resultado, isso despertou o ódio de outra coelha contra Haru. Não só esse episódio como outros da vida da coelha branca, fazem alusão a como a mulher, principalmente a negra, é vista como objeto sexual. No mundo real, podemos ver os casos de várias mulheres negras que foram usadas para satisfazer as vontades de homens brancos donos de escravos. Assim como ainda hoje uma cultura de estupro faz vítimas de diversas idades.

https://www.bbc.com/portuguese/brasil-36401054

Em suma, vemos a sexualidade da mulher posta para debate com Haru, que passou a se deitar com diferentes parceiros, uma vez que essa parecia ser a única maneira que ela teria, de ser vista como indivíduo por outros. Similarmente no nosso mundo, os padrões de beleza gritam que só é mulher aquela que atingir determinada estética, que prega uma objetificação ao passo que a diminui enquanto individuo.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

 

A sociedade em Beastars

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Como já mencionado, a maneira que esse mundo revela seus elementos, por si só já condiz uma narrativa que remete ao que encontramos na nossa vida. Desde a morte do aluno herbívoro até o crime organizado que sequestra e assassina os animais que não são carnívoros; fica evidenciada uma tentativa coletiva de esconder e evitar falar sobre o assunto, isto é de permitir de maneira passiva que os crimes continuem acontecendo.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Uma vez que a história caminha, descobrimos que o prefeito da cidade é um leão que fez o possível para adotar uma aparência agradável portanto relacionável, com o proposito de esconder seu lado violento. Pouco tempo depois nos é mostrado como o mesmo sabe sobre o crime organizado, sobre o sequestro e a morte de herbívoros, assim sendo conivente com isso.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Em outro momento um grupo de alunos carnívoros vão até o centro da cidade, lá se deparam com uma rua em que a carne de animais é comercializada. Alguns desses, ao se deparar com esse cenário,  acima de tudo se veem completamente felizes e animados com a possibilidade a sua frente. Eles se veem livres de repercussões sociais, e sem a trava moral de antes. Apenas dois do grupo, se distanciam dali e conversam sobre a questão, de como ainda que estivesse acontecendo na frente deles, aquilo ainda era errado.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Essas cenas sozinhas de Beastars, parecem falar apenas da constante violência ou tendência ao lado selvagem desses seres, além disso fala exatamente de como existe uma tolerância a morte dos herbívoros. Só que ao colocar uma lente próxima a nossa realidade fica mais palpável enxergarmos nossos dilemas em tela.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Infelizmente não é novidade notícias de estudantes negros e pobres sendo mortos, e nada é feito a respeito, tempos depois a tragédia se repete e as mesmas perguntas são levantadas. Mas as autoridades remediam a situação como podem e passam a evitar o assunto.

Em 2017 uma passeata nazista aconteceu nos Estados Unidos, uma multidão de pessoas marchou com tochas na mão em prol da “supremacia branca”. Aliás pouco antes disso, líderes de grupos racistas declararam apoio ao presidente americano, agradecendo pelos ideais que ele compartilhava.

As cenas de Beastars podem ser lidas como uma versão fictícia da nossa realidade. Pois assim como o aluno herbívoro, os estudantes negros que moram em bairros periféricos são mortos e nada é feito sobre isso. Líderes eleitos, são coniventes e permitem que ódio e violência se espalhem, assim como um leão se passando por “cordeiro”. Os garotos carnívoros se veem livres para agir de certa forma por se acharem numa situação confortável para isso, de fato  cientes de que não há repercussão negativa aos seus atos. Munidos da falsa ideia de direito ou mesmo de segurança pelo passado, eles cometem atos horríveis.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Por isso tudo mencionado, fica claro que o que acontece, decorre dessa aparente impunidade e permanente estado de condescendência para com crimes contra os herbívoros no anime e negros no nosso mundo.

Então…

Beastars

©Beastars – Paru Itagaki

Beastars mostra uma sociedade que convive com a morte e a opressão, mas passa a maior parte do tempo fingindo que isso não existe. A violência, preconceito e morte são tolerados, baseados numa ideia de que as coisas são como deveriam ser ou como um dia já foram. Do mesmo modo esse tipo de pensamento permite o racismo estrutural e diário nas nossas vidas. Mas precisamos abrir os olhos para essa desigualdade aliada a sensação de impunidade que perpetuam o racismo.

Beastars

© Beastars – Estúdio Orange e Netflix

Em suma, vemos esses personagens formando sua bússola moral, aprendendo como se relacionar e como seus “privilégios naturais” podem torna-los insensíveis e egoístas. Acompanhamos principalmente Legosi, que vive seus dilemas, mas reflete a todo momento sobre seu local no mundo e sua posição com os outros. Talvez esse seja o necessário a todos nós.

Beastars

– Você não sabe, como é, ser um animal que a vida está SEMPRE em risco…

Levando tudo isso em consideração, bem como os personagens da obra, precisamos incentivar a auto-reflexão, reconhecer e aprender com a história. Saber que a forma que o meio social se encontra, decorre de erros e acertos do passado, e ainda mais de erros e acertos do presente. Herbívoros são menosprezados e sofrem violência, não sabemos se eles irão um dia viver pacificamente com os carnívoros nessa história. Mas no nosso mundo, precisamos nos perguntar se estamos fazendo o necessário para acabar com o racismo.

See You Later Elevator!

Veja também o nosso podcast falando sobre o anime: AQUI

Ps: Antes de mais nada, entendo que o tema de racismo seja difícil de ser entendido por muitas pessoas. Primordialmente preconceitos estão muito enraizados na sociedade. Todavia é necessário se abrir para a reflexão. Para exemplificar como esse racismo faz parte da vida de todos os negros, deixo essa cena do seriado Greys Anatomy, que retrata o diálogo que é muito comum entre pais e filhos negros, demonstra a violência e a injustiça do nosso mundo.

 

 

 

Posts Relacionados