Cosplay, Arte ou Empreendimento? – Uma Conversa com Ana Luíza Bélico

Cosplayers na Comic Con Experience 2015 em São Paulo. Foto: Mega Hero

O cosplay é algo que hoje já faz parte da cultura pop. É impossível ir a um evento sem ver alguém representando um personagem ou mesmo várias pessoas fazendo sua versão do herói ou vilão do momento. Também é quase impossível não esbarrar com qualquer cosplayer ou cosmaker nas redes sociais. E até mesmo tem se tornado muito mais comum ver esses artistas ajudando a promover marcas e servindo de atrações dentro dos eventos. Em suma, o cosplay se tornou, por si só, mais um dos diversos nichos, cheio de complexidade e elementos, que os produtos da cultura de entretenimento produz.

O assunto não é novidade e muito menos é desconhecido do público fã de cultura oriental. Aqui mesmo no site você pode conferir algumas matérias sobre o tema, como a “ O que é Cosplay Genderbend & Crossplay?” da Lanna (Bogo).

Recentemente tive a oportunidade de bater um papo com a Ana (@Kikibelico) que se considera “cosplayer  freelancer”, e desse papo resultou esse texto e um podcast que você pode ouvir nas principais plataformas linkadas no fim do texto.

Não pretendo usar definições do que significa cosplay, nem nada do tipo, afinal já existem diversos artigos que falam sobre isso, incluindo o trabalho de conclusão de curso da própria Ana.

Projeto de Conclusão de Curso – Reportagem em Snowlfall de Ana Bélico

Mas quem é ela?

Ana Bélico, entre outras coisas é formada em Artes Plásticas e Jornalismo, é produtora de eventos, podcaster e co-fundadora do site Mega Hero e Mega Power. Além disso, ela que também faz cosplay, mas de maneira mais ocasional, fez uma vasta pesquisa e produziu uma excelente reportagem, sobre esse tema, que você pode conferir online: “A Arte de Desafiar o hobby” . Nesse trabalho ela aborda não só a história do cosplay e seu crescimento e potencial, como também fala de assuntos que hoje são realidades para quem trabalha na área, como o uso de plataformas de apoio online e a visão empreendedora que o cosplayer pode usar para transformar essa atividade em profissão.

A internet e o cosplayer

O mundo do cosplay já mudou muito e muito rápido, se levar em conta o ano em que ela conclui o trabalho e atualmente quando conversamos, muitas coisas que estavam começando já estão completamente estabelecidas, bem como a própria abordagem acadêmica do tema. Já é possível encontrar alguns outros trabalhos universitários que tem como foco nessa área de interesse.

Fonte: https://www.mapinguanerd.com.br/aluna-da-ufam-defende-tcc-sobre-cosplay-fazendo-cosplay/

Dentro deste nicho, é inegável o aspecto de como as plataformas online tem uma parte gigante na carreira do artista. Seja para divulgar fotos, criar uma base de fãs, divulgar os trabalhos remunerados ou mesmo se manter em contato com outros artistas, as redes sociais são quase obrigatórias.

Claro que existe todo um lado mais obscuro sobre as redes sociais, (que pretendo abordar em outra oportunidade), mas sobre essa lente mais positiva, o continuo avanço e a relação mais direta que todos tem com a internet pode ser diretamente proporcional ao reconhecimento do trabalho do cosplayer. Seja para tirar dúvidas quando se está começando, ou ter contato com pessoas de outras regiões e entender como as coisas tem funcionado lá, a internet é um infinito espaço que proporciona conexão e aperfeiçoamento; se o artista assim quiser fazer.

A presença online parece se tornar um requisito, mas pode ser enxergada como um recurso.

O aspecto do empreendedorismo… Como uma Necessidade?

O Cosplay é arte, ele requer tempo, paciência e muita disposição para criar algo do qual se orgulhe. Agora quando observamos de maneira externa, esse artista que decide levar a arte de se caracterizar, como trabalho, enxergamos a necessidade de uma visão “empreendedora” para o desenvolvimento da atividade.

Cosplayer e Cosmaker Lexis – @lexisz.h –

Ao olhar de forma fria, temos alguém utilizando de diversos materiais, tempo e criatividade para encarnar um personagem, temos o cuidado com as peças produzidas, o transporte para os eventos, o aspecto de entretenimento que ele gera naquele espaço e etc…

…e do outro lado da balança: nenhuma remuneração. Ou em outros casos, um valor injusto ou promessas de visibilidade.

Com este cenário, fica bem claro que não basta que o artista crie e interprete a fantasia; Se não houver uma mentalidade clara, sobre seu valor e o quanto ele pode ou não agregar e realizar e com isso receber algo justo, a “roda do mercado” simplesmente não gira.

Essa reflexão especifica, foi algo que a Ana explanou de maneira mais aprofundada na entrevista, por isso vale tirar mais um tempo para conferir o programa. (Link para o podcast no Youtube)

Ainda sobre esse aspecto “profissional” da atividade, fica evidente como ela passou a ser muito mais valorizada, e um sistema próprio de troca de experiências surgiu, como o caso de cosplayers/cosmakers que vivem de fazer palestras e vender livros sobre suas experiências.

Mas esses são só alguns dos elementos que confirmam que uma visão “empreendedora” ou ao menos consciente financeiramente foi surgindo como uma necessidade e hoje é um dos elementos que precisam ser levados em consideração.

Apesar disso tudo, Não Existem Regras! Ou quase isso… 

Como a própria Ana afirma, não pode haver julgamento de valor sobre nada disso, pois ao contrário do que parece, transformar essa arte em trabalho não é uma regra. Assim como outras artes, sua principal função é permitir que o indivíduo se expresse, e se sinta confortável com ela.

Cosplayer Sailor Melanin – @ladylocosplay – Fonte: Instagram da Artista

Apesar de parecer que quando se entra nesse mundo, ele gire em torno de competições, números de seguidores e premiações, a arte ainda está lá. E mesmo quando o cosplayer faz a arte buscando somente isso, também não está errado.

Bruna Tavares – Redatora do Blog do Animystic (Twitter e Instagram)

As regras que parecem estar no subconsciente da própria comunidade, parecem se originar dos preconceitos que enxergamos na sociedade comum. Coisas como discriminar o corpo do artista, questionar a qualidade do trabalho baseado nos aspectos físicos, julgar o material utilizado para criar, ou até mesmo impor perfis étnicos e de raça como únicos “permitidos” a interpretar certas figuras. Isso tudo surge do racismo estrutural, preconceito de classe, imposições sobre padrões corporais e de comportamento além do preconceito quanto a gênero e sexualidade.

Ou seja…

O mundo do cosplay, surge da vontade de interpretar, tentar criar, e se expressar; preconceitos não podem ser limitadores, e muito menos uma visão enviesada desse universo. Nem todo mundo precisa ser profissional, mas tudo precisa ser feito de maneira a se sentir confortável e satisfeito consigo mesmo ao final do dia.

Lanna – Redatora do Blog do Animystic (Instagram)

A Ana logo de cara já demonstrou um olhar muito interessante sobre esse “multiverso” do cosplay, ela analisa de maneira crítica e analítica, e melhor ainda como cosplayer e como produtora de eventos. O nosso papo foi bem vasto, e ainda comentamos sobre mais outros elementos que não abordei diretamente nesse texto, como por exemplo a questão do “cosplay +18”, então te convido a ouvir também o podcast resultado dessa entrevista.

Para ouvir o podcast você pode clicar aqui.ou no link abaixo pra acompanhar no spotify.

Siga também claro a artista em todas as redes sociais e vamos continuar dando apoio em todos os projetos que ela participa.

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Debatemos esse tópico com a galera de fora nos últimos dias! Mas isso tem que ficar bem resolvido da nossa cabeça! Cosplay é para todos sim! E nós cosplayers temos que ter isso no coração não só para quando falarem mal de nós por aí. Mas também quando formos olhar uns para os outros. Nos reconhecendo como cosplayers. Eu posso, ele pode, ela pode. Todos! Sem exceção! Sem discriminação. É divertido para mim e será para o outro também! Muita gente deixa de entrar no cosplay por MEDO de rejeição, medo de não ser aceito como é. E o nosso papel é exatamente esse de acolher. #JuntosSomosMais Compartilhe para que essa dúvida não exista mais! #respeiteocosplayer #cosplaynaotemidade #cosplay #cosplayer #cosplayéparatodos #cosplayparatodos #cosplaybr #cosplaybrasil

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E mais uma vez, não precisa julgar ninguém, muito menos a si mesmo! Só faça cosplay!

See You Later Elevator

ps: O Conversa é Essa?, que é o podcast em que entrevistei a Ana, é um projeto de minha autoria Bruno Trajano, e por isso já fico grato se você além de acompanhar os textos por aqui, puder ouvir o conteúdo lá no podcast!

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