Queer Eye no Japão – Problemas de um País ou de Todos Nós?

Queer Eye se tornou um fenômeno mundial, e a prova disso é sem dúvidas a temporada especial que se passa no Japão. O reality show, em resumo, acompanha os “Fab Five”, cinco homens gays, com diferentes áreas de atuação e habilidades que buscam ajudar e transformar a vida de uma pessoa. O reality conta com 4 temporadas, disponíveis no serviço de Streaming Netflix.

O resumo leva a imaginar um “reality de makeover” simplista, mas o programa em si alcançou muito mais do que era esperado por qualquer um. Em suas temporadas regulares, ele foi capaz de tocar em assuntos como preconceito, depressão, isolamento na velhice, discriminação racial e étnica e muitos outros assuntos. Mostrando pessoas reais, chamadas de “heróis”, e suas vidas, e como com uma pequena ajuda dos cinco fabulosos, eles conseguiram alcançar o que desejavam, ou até mesmo mudar hábitos ruins, ou ter finalmente um recomeço.

A temporada especial no Japão não foge a esse aspecto que torna o reality tão atrativo. Por quatro episódios, acompanhamos protagonistas, com problemas reais, e muito tocantes. Mas esses quatro também parecem, de certa forma, refletir certos problemas que já vimos antes serem associados ao país. O Japão tem uma carga histórica muito grande que influencia sua cultura. E apesar de ser um dos países mais desenvolvidos e avançados do globo, ele não deixa de apresentar problemas enormes. A exemplo da taxa de suicídio entre crianças adolescestes que teve um aumento a poucos anos atrás.

É possível ver dentro do reality aspectos que estão enraizados na vida das pessoas, problemas e preconceitos que deixam grandes marcas na vida dos indivíduos que vamos conhecer.

Mas Vamos a essa temporada especial…

Episódio 01 – A princesa japonesa

Já abrindo com uma história muito emocionante, somos apresentados a Yoko, uma enfermeira de 57 anos, que afirma ter “desistido de ser mulher”. O episódio retrata bastante de como é a sua vida, e como ela transformou sua casa, em uma espécie de casa de repouso, onde ela atua como enfermeira pessoal para os pacientes. Sua motivação é muito tocante, pois ela afirma, que sua irmã faleceu sozinha no hospital, e ela só conseguia pensar como ela gostaria de poder estar em casa, ao invés de sozinha em uma cada de hospital. Assim Yoko, que já tinha histórico de ser uma enfermeira menos “convencional”, ao fazer brincadeiras, se fantasiar e buscar a alegria dos pacientes, fundou seu próprio lar de cuidados.

É interessante observar, que mesmo Yoko, sendo alguém que fugia de certos padrões, e vive segundo seus princípios e ideais, ela se vê aprisionada dentro desse conceito, ao qual somos apresentados, de “desistir de ser mulher”. Existe aqui uma problemática bem abrangente, que afeta não só o Japão,  sobre o que é ser mulher. Esse padrão de uma mulher dócil, submissa e sempre prestativa e atraente foi exigido durante anos e anos, e qualquer passo fora dessa régua sempre foi veementemente condenado, criando assim um problema dentro da própria cultura dos povos.

Esse é um tema, muito relevante e interessante que precisa ser ressaltado e trazido também pra nossa realidade. A fim de ofertar mais lugar de fala deixo como sugestão o texto curtinho das meninas do Molho Shoujo, falando sobre esse episódio.

http://molhoshoujo.com.br/waseigo-o-ato-de-desistir-de-ser-mulher

 

Episódio 2 – Louco de Amor

O segundo episódio não diminui o ritmo quanto a abordar problemas que várias pessoas enfrentam hoje no Japão, e claro em todo o mundo. Acompanhamos, Kan, um jovem de 27 anos, que desde bem pequeno, sofria com o bullying e xingamentos, e era chamado de “okama”. Ele ainda sofre para se assumir como homem gay, e acentua com sua história, como ainda é tremendamente difícil, se sentir confortável sendo como é, em uma sociedade que busca pelo “padrão inquebrável e correto”.

Em seu depoimento para as câmeras, Kan ressalta seus medos, e como passou a se sentir um estrangeiro, em seu país de origem. Nos vemos então, diante de um dilema que assombra muitos: saber seu lugar, se sentir pertencente. A dúvida, e a autossabotagem tomam conta dos nossos pensamentos, e logo não conseguimos enxergar realmente uma saída. Kan é um exemplo muito honesto de como, mesmo sendo um jovem esforçado, com metas, um trabalho e tudo mais que parecem “exigir”, ainda existem aqueles que não medem esforços para humilhar e excluir.

Todo o desenvolvimento de Kan, ao longo do que é mostrado, reflete não só uma possibilidade de vida, para ele e muitos outros, como também uma fagulha de esperança, para a mudança geral na sociedade. Temos exemplos de pessoas que conseguem ser completas, mesmo fora dos “padrões”, e ainda uma comunidade de verdade que oferece suporte e aceitação. Essas são as ferramentas ideais para conseguir não só se recuperar dos traumas passados, mas poder finalmente deixá-los para trás e viver de cabeça erguida.

 

Episódio 3 – A Mulher Ideal

No terceiro episódio, conhecemos Kae, a personagem mais próxima ao “otaku” que estamos acostumados, ou de certa forma esperamos encontrar no Japão. A jovem ilustradora de 23 anos, traz à tona, com sua história, novamente a discussão sobre bullying, aparência e “como uma mulher deveria ser”. Diversas vezes, vemos momentos em que ela desenha personagens, e alguns inspirados em si mesma, e ela acaba por sempre representar essa versão de si, de uma maneira mais triste e sombria.

Um dos pontos chaves desse episódio é a presença de Naomi Watanabe, a comediante, atriz e designer de moda, já conhecida por falar sobre autoaceitação e amor próprio, traz mais esse elemento essencial para o programa. Kae, que passou a sofrer, duvidando de seu próprio potencial é levada a reconhecer seus pontos fortes, e tem momentos muito bonitos de diálogos com Naomi.

A relação de Kae de seus familiares, principalmente com a mãe, não pareciam a um olhar rápido serem grandes aspectos a serem trabalhados, mas ao se atentar a isso, pode-se perceber desde o início do episódio, um incessante comportamento de criticas voltadas a Kae, por parte da Mãe. Em certo momento as duas são questionadas sobre como se sentem em relação uma a outra, e com isso outro elemento chave é revelado.

Fica evidente, no episódio, essa criação que presa pela independência do jovem, mas que não oferece apoio emocional, e sim uma modelo de vida a ser seguido. E como mesmo quando os pais sentem a necessidade de demonstrar mais emoções, ou serem mais abertos, eles se deparam com a barreira emocional que foi criada nas suas próprias infâncias. Percebemos nesse terceiro episódio como a criação e as expectativas dos pais se mostram um problema, evidenciados pela relação difícil entre mãe e filha, que sofrem tanto para demonstrar e aceitar o amor que sentem.

Não se trata da falta de carinhos ou palavras, mas como em todo o mundo, prezamos tanto pelo sorriso e o “bem estar”, que passamos a condenar qualquer momento de tristeza ou dor, levando com que seja criada essa cultura de esconder qualquer dificuldade a fim de manter a aparência feliz. Nos tornamos reféns da busca pela felicidade. Vivemos com vergonha e medo de não estarmos sempre fortes e felizes.

 

Episódio 4 – Voltando a ser Sexy

No episódio final e um dos episódios mais reveladores e com certas reviravoltas, desse especial, conhecemos Makoto e sua esposa Yasuko. Acompanhamos Makoto, que apresenta muitas dificuldades em se expressar e ser comunicativo com a própria companheira, e se vê numa situação em que já não sabe se ela o enxerga como homem ou alguém que ainda queira por perto, e isso faz com que ele se torne ainda mais silencioso e evite tocar no assunto.

 

O casal, vive como conhecidos que dividem um apartamento, sendo raro vê-los até trocando olhares, e logo a questão do sexo é trazida a tona. Não é nenhuma novidade a relação problemática que o Japão, mas não somente ele, tem com a sexualidade o sexo e todas essas questões. Eu mesmo já escrevi um text sobre isso, que você pode conferir clicando aqui: Danmachi e a Dualidade do Sexo na Sociedade em que Vivemos.

 

O episódio parece resumir em alguns momentos, alguns problemas trabalhados antes, como a questão da pressão social, a dificuldade em falar das emoções e até mesmo o peso da cultura adquirida através das gerações. Muito é questionado sobre o papel do homem, e mesmo sobre a liberdade do individuo de se expressar. E em um momento emocional, o episódio apresenta uma catarse libertadora de sentimentos. (Você vai precisar assistir ao menos esse pra saber do que estou falando.)

O sexo é um tabu, em todo o mundo, mas é possível perceber aqui, que o problema mais difícil de se enfrentar é na verdade a comunicação. E essa é sem dúvidas, uma questão universal, já que parece que não somos mais incentivados ao diálogo, mas apenas esconder o que incomoda, junto de qualquer emoção. O episódio aborda a ideia de se expressar livre e abertamente, o que é mesmo ótimo, mas ainda cabe a reflexão, o que nós expectadores estamos deixando de comunicar? onde estão nossos tabus? o que tem nos machucado e ainda assim estamos só deixando tudo como está?

 

Então…

Eu quis apresentar esse especial de Queer Eye de uma forma mais simples, a fim de que realmente leve você a querer assistir. Eu acredito que os temas apresentados, demonstram em primeiro lugar, problemas reais que ainda assombram a sociedade japonesa, e como esses problemas que ainda que carregados de elementos culturais e históricos do país, ainda podem ser reconhecidos na nossa realidade aqui no Brasil, e pelo mundo.

Não posso dizer que o programa é perfeito, pois se colocarmos outra lente sobre a produção ainda se tem a grande questão de termos a visão americana sobre aspectos culturais da sociedade japonesa. Até aonde não existe uma visão de superioridade ao encarar os dilemas apresentados, e até onde houve realmente uma boa vontade em se imergir naquela realidade a fim de fazer o melhor por aquelas pessoas, pensando em suas realidades e não do estrangeiro que vê tudo como “exótico”.

Como disse, não devemos consumir nada, sem nos lembrarmos que todos possuem suas construções ideológicas e visões que podem estar equivocadas ou não observando o todo e tendo respeito com certos traços. Entretanto, fiz questão de ressaltar desde o inicio, os problemas que são destaques no Japão e estão presentes em nossas vidas.

Pesquisa do Data Folha feita em 2019 no Brasil

O reality evidencia como o sofrimento pode ser arrastado ao longo do tempo, danificando o nosso ser. Temos evidenciado os problemas com a falta de comunicação sincera e como a liberdade continua a depender da nossa própria batalha diária. É ótimo ver o poder da aceitação e dos bons exemplos. Pessoas que parecem ser as exceções e que torcemos que virem regras, estão por ai, mostrando que existe mais de um jeito de viver a vida. As pessoas vão além dos estereótipos associados a elas, mas ainda continuam sendo julgados com base neles. Mas nós somos aqueles que podem mudar isso, pois essa é nossa realidade.

Continue sendo positivo e aprendendo mais sobre o mundo, e acima disso sendo rebeldes pois como disse o Jonathan:

“Se amar é ato de rebeldia, então vamos nos rebelar!”

See You Later Elevator!

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