Studio Ghibli — A Pureza e Simplicidade da Arte

Hello gente bonita, aqui é a Andressa e dessa vez eu vou falar sobre o Studio Ghibli, um estúdio que eu tenho um imenso carinho e uma imensa admiração.

©Studio Ghibli

O legado do Studio Ghibli

Às vezes olhamos para pessoas comuns e nunca pensamos que elas são capazes de feitos extraordinários. Todo o legado e importância do Studio Ghibli não surgiu do nada. Foram pessoas, assim como eu e você, que unidos pelo o amor a arte e ao cinema, fundaram em 1985 um estúdio que valoriza essencialmente a vida humana, suas contradições com a natureza, sutilezas e o mais importante: a simplicidade dos momentos humanos. Essas pessoas eram, Hayao Miyazaki (diretor), Isao Takahata (produtor), Toshio Suzuki (produtor), e Yasuyoshi Tokuma (produtor).

©Studio Ghibli

Ao meu ver, criar animações significa criar um mundo ficcional. Esse mundo acalma o espírito dos que estão desanimados e exaustos de lidar com os limites extremos da realidade, ou aqueles que estão sofrendo de uma distorção míope das suas emoções. Quando o público está assistindo a uma animação, ele está apto a se sentir leve e alegre ou purificado e renovado.

Hayao Miyazaki

O que permitiu a construção do estúdio foi o sucesso do filme de animação Nausicaä do Vale do Vento em 1984, uma adaptação do mangá que Miyazaki produziu por 12 anos. A história é sobre a Princesa Nausicaä, que em um mundo pós-apocalíptico tenta viver em harmonia com a floresta tóxica e as criaturas que faziam parte dela. Enquanto alguns humanos ignorantes tentavam destruir essa floresta, a princesa buscava pesquisar e entender um pouco mais sobre ela.

©Studio Ghibli

Nausicaä é um exemplo de coragem e força feminina. Uma representação muito comum nos filmes do Studio Ghibli, onde as mulheres possuem um papel de protagonismo e são verdadeiros exemplos quando se trata de compaixão e empatia. Além de serem representadas como realmente são na realidade, com suas fragilidades e medos momentâneos, mas nunca deixando de lado a importância que possuem no mundo.

Em um mundo onde as consequências do patriarcado revigoram até hoje, a representatividade é essencial. Por muito tempo, apenas os homens assumiam papeis principais nas obras e tinham voz. E mesmo na realidade, as mulheres eram e são subjugadas. Segundo dados do IBGE, as mulheres do Brasil ganham em média, cerca de 20,5% a menos que os homens e enfrentam diversos preconceitos em suas profissões por causa de uma construção social que pregou por muito tempo qual era o papel do homem e da mulher na sociedade.

Em épocas mais antigas, as mulheres eram obrigadas a casar com quem a família lhe designava e logo após ser dona de casa, como se fosse o único destino que as esperavam. Há muito tempo as mulheres sofrem e hoje em dia o feminicídio é algo alarmante.

Ainda existem muitos preconceitos e construções ultrapassadas que fizeram com que as mulheres fossem inferiorizadas, para desfaze-los, é de suma importância que produções cinematográficas abordem essas questões — pois elas possuem um poder forte, e que é capaz de reverberar na realidade. Se pessoas morrem simplesmente pelo fato de serem mulheres, então algo está completamente errado e não devemos aceitar com naturalidade esse quadro.

Cinema é uma arte que faz o ser humano refletir, e essa reflexão pode ser crucial para que essa realidade mude.

Uma revolução da consciência é tão importante quanto uma na vida real. E essa é uma das coisas que o Studio Ghibli domina mostrando através de suas histórias, com filosofias de vida para o bem e nos ensinando que tudo que há na terra, é importante. Além de mostrar que uma mulher pode fazer tudo o que um homem faz ou até mesmo mais.

©Studio Ghibli

Nascendo próximo a Segunda Guerra Mundial, o Diretor Miyazaki sentiu a dor que as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki causaram na população do Japão, viveu ainda uma infância complicada, devido sua mãe sofrer de uma grave doença e ter ficado em  cama por 9 anos. Desde então, Miyazaki repudia os Estados Unidos com todas as suas forças.

E não é só por isso, olhando para a linha temporal da história humana, podemos perceber o quão cruel e irracional os Estados Unidos pode ser bombardeando civis inocentes, simplesmente por causa de poder, recursos naturais e para manter a sua condição de ser temido pelos demais países.

Eu detesto os EUA que lançaram uma bomba nuclear e não se arrependem. Detesto pessoas que ficam orgulhosas que carros baratos do Japão são baratos na América. Eu vejo pessoas que usam o símbolo das Forças Armadas dos EUA, que encheram o Vietnã de dioxinas, como meus inimigos. Sou anti-jeans, anti-bourbon e anti-hambúrguer, anti-KFC, anti-refrigerante, anti-Starbucks, anti-Nova York. Que a Disneyland volte para a América!

Hayao Miyazaki

Isao Takahata um grande amigo de Miyazaki, foi quem dirigiu Túmulo dos Vagalumes, um filme de animação do estúdio que conta a história de dois irmãos que em meio a uma guerra tentam sobreviver a um mar de sofrimento e adversidades que essa situação gera.

©Studio Ghibli

A animação retrata fielmente os problemas da guerra e da dor que ela causa nos civis que são condenados a passar por isso, e é considerada até atualmente, um dos filmes mais realistas já feito.

As consequências dos bombardeios em Hiroshima e Nagasaki não se distanciam muito das que aparecem no filme que Takahata dirigiu, pois assim como nele, a realidade de quem vive em meio a esses eventos também pode ser dilacerante.

Para mim, os filmes que ficam na minha cabeça não são os que me deixam pra cima, mas os que retratam as verdades da sobrevivência.

Hayao Miyazaki

Outro papel importante e fundamental da arte também é o de mostrar as crueldades que os humanos são capazes de cometer com sua própria espécie e a natureza, para que então possamos sentir, refletir, se sensibilizar e mudar.

Não dá para se ter um final feliz em uma briga entre deuses enfurecidos e humanos. Porém, mesmo no meio do ódio e de matanças, existem coisas pelas quais vale a pena viver. Um encontro maravilhoso ou uma coisa bonita podem existir. Nós retratamos o ódio, mas é para mostrar que existem coisas mais importantes. Nós retratamos uma maldição para mostrar a alegria da liberação. O que nós buscamos retratar é como o garoto entende a garota, e o processo no qual a garota abre o seu coração para o garoto. No final, a garota vai dizer para o garoto: “Eu te amo, Ashitaka, mas não posso perdoar os humanos.” Sorrindo, o garoto deve dizer: Tudo bem. Fique comigo.

Hayao Miyazaki

Contudo, a arte também pode ser algo para se admirar.

A Arte do Studio Ghibli

©Studio Ghibli

Condenando completamente a computação gráfica para animação, Miyazaki até tentou usar em um de seus filmes, mas desistiu totalmente da ideia. Segundo ele, computação gráfica deixa tudo muito artificial e é incapaz de retratar a vida tal como ela é.

E é por isso que para o carismático diretor, antes de produzir um filme é necessário a observação da realidade. Pois a partir dela, a arte poderá manter um vínculo com a vida real.

Veja, quer você possa desenhar assim ou não, ser capaz de pensar nesse tipo de design depende de você poder dizer a si mesmo: ah, sim, garotas assim existem na vida real. Se você não observa pessoas reais, você não pode fazer coisas assim, pois você nunca as viu. Algumas pessoas passam suas vidas interessadas apenas em si mesmas. Quase toda a animação japonesa é produzida sem nenhuma base da observação de pessoas de verdade. É produzida por humanos que não suportam olhar para outros humanos. E é por isso que a indústria está cheia de otakus.

Hayao Miyazaki

©Studio Ghibli

Outro conceito muito importante para ele é o Ma, que significa vazio em japônes. Diferente de alguns filmes de Hollywood em que as cenas são feitas somente para vender o produto, nas animações do Studio Ghibli algumas cenas são apenas para contemplar a paisagem ou os personagens tirarem um tempo só pra si, para pensar e tentar entender melhor quem eles são; uma característica bem inerente a nós humanos.

©Studio Ghibli

As animações do Studio Ghibli são todas produzidas a mão e o estúdio quase fechou as portas quando terminou de produzir O Serviço de Entregas da Kiki que saiu muito caro por causa da qualidade técnica. Os traços da incrível história da bruxinha japonesa que sai de casa em busca de independência são extremamente bem detalhados e os cenários são esplêndidos.

©Studio Ghibli

O que permitiu o estúdio continuar produzindo seus filmes foi o grande sucesso de Kiki que conquistou o coração das jovens japonesas.

©Studio Ghibli

Sendo um grande admirador de Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro O Pequeno Príncipe, Miyazaki tem como um de seus livros favoritos a obra O vento, areia e estrelas.

No dia em que eu construir minha casa, quero que ela consiga dizer algo.

Que ela seja um sinal, um símbolo…

Deixarei que a casa de meus sonhos surja do meu interior, como a água surge da fonte, ou a lua do horizonte…

Tentarei revelar de meu ser, trazendo do fundo de minha alma o que lá parece escuro…

Contudo, crente de que há uma luz interior radiante, esplendida, irei querer propagar aos quatro ventos…

Proporcionando o conhecimento a quem desejar saber…

Afinal, temos dentro de nós sonhos possíveis de serem realizados.

 Basta tão somente acreditar.

O vento, areia e estrelas

Saint-Exupéry

Assim como Saint-Exupéry, Miyazaki também era fascinado por aviões, pois seu pai era diretor em uma empresa de aviação. E é por isso que aviões são tão comuns nas animações do Studio Ghibli.

©Studio Ghibli                                                                                                                                                                    

O vento ergue-se, é hora de viver!

Vidas ao Vento

Vidas ao Vento é uma animação que conta a história sobre o jovem Jiro Horikoshi, um personagem baseado em uma pessoa real. Em meio a guerra e movido pelo sonho de construir um avião com o formato de pássaro, Jiro terá que lidar com uma realidade cruel e lutar para que os aviões não sejam usados para a guerra.

©Studio Ghibli

Todas as animações do Studio Ghibli são feitas primeiramente em storyboard (uma série de esboços em ilustrações), e somente depois os diálogos são adicionados. Para Miyazaki, é importante antes de tudo que os filmes passem a mensagem por meio da arte visual. Para ele isso permite que as possibilidades de desenvolvimento da história sejam exploradas em uma maior amplitude.

Nascer significa ser obrigado a escolher uma época, um lugar e uma vida. Existir aqui, agora, significa perder a possibilidade de ser outras personalidades potenciais inumeráveis.

Hayao Miyazaki

Em Princesa Kaguya que conta a história de uma menina que é abandonada em uma floresta e encontrada por um homem tendo que lidar com a infelicidade de ser uma princesa, podemos perceber a delicadeza e sutileza dos traços na animação. Além da movimentação em momentos simples e cotidianos serem feitas com uma precisão minuciosa, algo completamente encantador aos olhos humanos.

©Studio Ghibli

O Studio Ghibli possui uma perspectiva totalmente humanista, entendendo o valor da vida e a importância de colocar em debate as contradições e complexidades da vida que os humanos são responsáveis, mostrando que são os sentimentos que fazem com que as imperfeições humanas surjam; em meio a fúria e ao ódio podemos perder completamente a visão de quem somos e do mundo ao nosso redor, e talvez seja por isso que ao decorrer da história cometemos tantas atrocidades. E sobretudo, que o bem ou o mal podem estar em todos e não somente em um vilão, como comumente é retratado em filmes americanos.

Em termos históricos, quantas vezes na história líderes religiosos e políticos aproveitaram de seu poder e influência para cometer crimes contra a humanidade e fazerem o mundo acreditar que eles estavam certos. A moral e a ética, são importantes e fundamentais para a coexistência da humanidade, mas elas podem ser controladas por quem detém o poder. Por isso é sempre importante questionarmos o mundo em que vivemos e aprendermos com ele; questionamentos estes, que as animações do Studio Ghibli pode proporcionar, por serem filmes politizados e reais.

©Studio Ghibli

A pureza e simplicidade da arte do Studio Ghibli se encontram na importância dada aos gestos simples das pessoas comuns e em traços detalhadamente humanos, além de lindas paisagens e o amor pela natureza que as animações transpassam.

Como humanos, necessitamos da natureza para sobreviver e mesmo assim continuamos a destruí-la. Ao contrário de Nausicaä, que encontra dentro de si maneiras de viver em meio a complexidade da vida e a floresta que surgiu após 7 dias de fogos que acabaram com a humanidade, somos ignorantes.

Mas o mais impressionante do estúdio, é que por meio de personagens profundos e da arte, ele é capaz de tocar verdadeiramente nossos corações.

©Studio Ghibli

Não importa quantas armas você tenha, ou quão poderosa sua tecnologia possa ser, o mundo não poderá viver sem amor.

O Castelo no Céu

Curiosidades:

  • Existe um museu do Studio Ghibli em Mitaka no Japão;
  • Miyazaki tem um posicionamento forte contra os Estados Unidos e suas ações imperialistas;
  • Isao Takahata morreu em 2018;
  • No museu você pode ter um passeio com o Miyazaki e o Sawano tocando piano de fundo, e até mesmo tomar um cafézinho com eles;
  • Miyazaki é um velhinho sangue quente.

Espero que você tenha gostado.

Andressa Araújo

Empolgada, curiosa e ansiosa por natureza. Tenho uma enorme admiração pela cultura oriental e amo joguinhos, arte, ciência e animes. Odeio a monotonia e meu maior sonho é criar uma máquina do tempo para impedir os portugueses de fazerem merda em território alheio. Animes que eu indico: Steins;gate, Mekakucity Actors, Fullmetal Alchemist e Sangatsu no Lion.
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