O Conto da Princesa Kaguya – A felicidade não se compra

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Oiee!!! Aqui é a Manu, e hoje vamos falar sobre Kaguya-hime no Monogatari, ou em português O Conto da Princesa Kaguya.

O Conto da Princesa Kaguya é um filme de fantasia e drama do Studio Ghibli, lançado em 2013. O roteiro e direção ficaram por conta de Isao Takahata (co-fundador do Ghibli, junto com Hayao Miyazaki). É baseado na mais antiga narrativa em prosa do Japão, um conto folclórico do século X, intitulado Taketori Monogatari (O Cortador de Bambu).

Sinopse

No interior, um homem chamado Okina trabalha como cortador de bambu em uma floresta, cortando as plantas ocas dia após dia. Assim um dia, ele descobre um pequeno bebê dentro de um rebento brilhante. Ele imediatamente a leva para casa, convencido de que ela é uma princesa enviada à Terra como uma bênção divina do céu. Okina e sua esposa Ouna assumem a responsabilidade de criar o bebê como se fossem seus, cuidando dela enquanto ela rapidamente se torna uma jovem enérgica. Com o nome de Kaguya, ela se enquadra perfeitamente na aldeia que passou a chamar de lar, fazendo aventuras com as outras crianças e aproveitando o que a juventude tem a oferecer.

Mas quando Okina encontra uma grande fortuna de ouro e tesouro na floresta, a vida de Kaguya muda completamente. Acreditando ser mais uma dádiva do céu, ele decide transformar sua filha em uma verdadeira princesa usando as riquezas que acaba de obter, mudando a família para uma mansão na capital. Enquanto ela deixa seus amigos para trás para entrar em uma vida indesejada de realeza, as origens e o propósito de Kaguya lentamente vêm à tona.

Animação e Produção

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

O conto da Princesa Kaguya foi indicado ao Oscar de Melhor Filme de Animação, porém perdeu a premiação para Operação Big Hero. Eu até gosto desse filme, mas sinceramente, a história e animação de O Conto da Princesa Kaguya para mim, é impecavelmente melhor.

A animação é linda, totalmente feita à mão, como uma pintura em aquarela. A humanização do desenho é incrível, a estética das emoções humanas é bem realista, porém de forma sutil, mas que não deixa nada passar.

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Takahata leu o conto quando criança, entretanto achou que a “transformação da heroína foi enigmática”, e “não provocou nenhuma empatia dele”. Porém, ao reler o conto percebeu que a história daria uma interessante adaptação se fizessem as pessoas entender como a princesa se sentia.

O filme foi tão bem trabalhado, que sua produção durou anos, só nos desenhos Takahata trabalhou por 8 anos. A preocupação dele foi tão grande, que ele até mesmo estudou como desenhar o corte de um fruto.

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

A música tema “When I Remember This Life” foi escrita e interpretada por Kazumi Nikaido. Joe Hisaishi trabalhou na composição da trilha sonora, que somou perfeitamente à história.

Apesar de não vencer o Oscar, a animação ganhou outras premiações ao redor do mundo, como o 68º Mainichi Film Awards, 36º Festival de Cinema de Mill Valley, 35º Prêmio Sociedade de Críticos de Cinema de Boston, o 40º Prêmio Los Angeles Film Critics Association, entre outras.

Sempre que vejo os filmes do Studio Ghibli, vejo uma diferença entre Miyazaki o Takahata, enquanto os filmes do Miyazaki têm elementos mais fantasiosos, os do Takahata tendem a ser mais humanos e profundos dramas, quem já assistiu Túmulo dos Vagalumes, sabe bem do que estou falando. E o Conto da Princesa Kaguya marcou o fim da carreira de Isao Takahata, sendo o último filme dirigido por ele antes do seu falecimento, em 2018.

A história

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Eu poderia falar tanto dessa história que escreveria mais do que o próprio conto. Porém vou tentar te ater apenas nos pontos problematizados na história.

Quando encontrada pelo “pai”, a princesa cabe na palma de suas mãos e vai crescendo rapidamente conforme vai rindo, ou seja, quando fica feliz ela cresce. Morando no campo, ela cresce rapidamente, indo de bebê para o início da adolescência praticamente em duas estações. Até esse momento, ela não possui um nome, os pais a chamam por princesa e as crianças de pequeno bambu (pois ela cresce tão rápido quanto um broto de bambu).

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Enquanto o pai cortava bambu, encontrou dentro de um rebento, ouro e tecidos finos, e entende que é o “desejo dos céus” que ela viva como uma verdadeira princesa, dessa forma, vai para a cidade construir uma casa “digna dela” (digamos, um palácio).

Eles mudam então do campo para a Capital, e inicialmente tudo novo e lindo encanta a princesa, a casa enorme, as roupas, os pais em roupas “engraçadas”. Porém, essa nova vida, começa a tirar da princesa sua liberdade, agora ela tem criadas e uma professora, a Lady Sagami que veio do palácio imperial, que vai ensina-la a ser uma nobre dama.

É nesses primeiros momentos, em uma sociedade excessivamente patriarcal, que a princesa começa a ter suas “asas” cortadas, pois aprende que uma nobre dama nunca deve correr, sorrir, chorar, suar e nem mesmo andar (isso mesmo, se quiser andar, deve andar ajoelhada!). Porém, a princesa não quer aceitar isso, simplesmente.

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

– Não! Nunca!

– Você nunca será uma princesa admirável com essa aparência.

– Vai escorrer suor nos olhos se tirar minhas sobrancelhas!

– Uma princesa nobre não transpira. Agora…

– E dentes escurecidos são simplesmente esquisitos! Como eu vou rir?

– Uma princesa nobre não abre a boca e ri

– Isso é estupidez! Até mesmo uma princesa deve transpirar e dar gargalhadas as vezes! Ou querer chorar. Ou sentir raiva e gritar!

– Não. Uma princesa nobre, não.

– Então, uma princesa nobre não é humana!

A mudança

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Quando chega a maturidade da princesa (ou seja a menstruação), seu pai fica feliz e decide chamar um lorde para dar um nome a ela, é quando ela recebe o nome de Kaguya, e seu pai dá uma festa em comemoração a isso (onde só se vê homens, as únicas mulheres estão os servindo). Uma festa, onde a mesma não foi autorizada a participar, enquanto, durante 3 dias todos festejavam, ela teve que ficar atrás de uma cortina sentada.

Já pensou no absurdo que isso é? A princesa precisou chegar a maturidade para ganhar um nome, até então, quem era ela? A mulher não era tratada como humana, afinal, como pode um ser humano não rir, chorar ou suar? A mulher era um objeto, e isso fica ainda mais claro conforme o filme continua.

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Até essa festa, vemos Kaguya lutando contra essas imposições às mulheres, se recusando a ser submissa ou ter seu corpo modificado ao padrão de beleza imposto. Desde o início é obvio que a única coisa que ela quer é ser livre, entretanto, ao ser acusada de querer magoar seus pais, e ao ver seu pai feliz por ela ser essa nobre princesa, ela aceita essas imposições, mudando sua personalidade, ficando claramente infeliz.

Os pretendentes

Apesar de ninguém ter visto sua aparência, a beleza de Kaguya vira lenda, e devido a isso, cinco pretendentes vão até seu pai pedir sua mão, e ela precisa escolher entre os cinco para ser “feliz”.

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Eles começam a falar sobre seus sentimentos, elogiando-a, comparando-a com tesouros lendários e inatingíveis, e ela diz a eles, que quem trouxer esse tesouro, ela será o tesouro desse nobre cavalheiro. Claro que ela diz isso porque sabe que esses tesouros não existem, porém, como ela se tornou um “objeto de desejo”, esses nobres pretendentes não desistem.

Enquanto ela fica enojada com tudo isso, as mulheres a sua volta ficam todas empolgadas, e apenas Kaguya enxerga o quanto isso tudo é ridículo.

Os anos passam e os pretendentes voltam, cada um trazendo o tal tesouro lendário, e a cada um, ela desmascara sua mentira.

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

Ao ouvir sobre isso, o imperador acredita que ela recusou todos esses nobre, pois queria ser uma das damas da sua corte, e decide que será ele quem a terá, e ele consegue ser ainda mais desprezível que os demais.

Ao final

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

O filme demonstrou qual lugar a mulher ocupava na hierarquia, a opressão que a mulher sofria, e apesar de eu estar falando no passado, isso ainda acontece no presente, a mulher muitas vezes ainda é vista como “do homem”.

A mulher como “bem”, pode ser bem representada numa apresentação, é muito comum ouvir alguém dizer “ah, ela é sua mulher?” ou o marido apresentar “ela é minha mulher”. Enquanto numa situação inversa seria “ah, ele é o seu esposo?” ou “ele é meu esposo”, nunca se ouve “ah, ele é o seu homem?” ou “ele é meu homem”… Claro que estamos falando isso no geral, porque já ouvi isso também, e nunca soa legal.

Afinal, ninguém pertence a ninguém, pertencemos somente a nós mesmos! Não temos que fazer os outros felizes, temos que ser felizes! E se sermos feliz, não faz com que aqueles à nossa volta também o seja, alguma coisa em nessa relação está errada!

© O Conto da Princesa Kaguya – Studio Ghibli

No filme ninguém nunca pergunta a Kaguya, o que ela quer, simplesmente decidem o que a fará feliz, e assim impõem a ela. A ambição e crença do seu pai a oprime e a torna infeliz, ao ponto de faze-la desejar a morte. Sei que a história também tem um significado a partir da visão do budismo, porém, como alguém que não conhece os ensinamentos budistas, não posso opinar sobre isso.

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A principal diferença entre o filme e o conto é que no conto, vemos tudo em 3ª pessoa, a princesa como um objeto e não enxergamos seus sentimentos. Já o filme é tudo sobre sentimentos, pois você sente a alegria, a tristeza, a dor e a depressão da protagonista, e acho que vale muito a pena assistir e ver o que acontece no final.

– … O que nós fizemos para merecer isso? Tudo o que fizemos foi para a sua felicidade!

– A felicidade que vocês me desejaram foi muito difícil de suportar. Sem perceber, eu rezei para que a lua me salvasse.

Para mais informações sobre O conto da Princesa Kaguya, clique aqui.

Assista clicando aqui (a dublagem em português está impecável).

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Trilha sonora:

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