The Great Pretender – A Moral do Golpista

Oi eu sou o Bruno, e trago dessa vez algumas provocações filosóficas sobre The Great Pretender.

Conforme já mencionado, o anime teve seu lançamento no Brasil em 20 de agosto. Com produção do estúdio WIT (Attack on Titan, Vinland Saga). Além disso, marca a estreia de Ryota Kosawa trabalhando nos roteiros para animes.

Além de chamar atenção primeiramente pela qualidade da animação e seus cenários muito ricos e coloridos…

© The Great Pretender – WIT

A obra traz Freddie Mercury em sua música de encerramento. A saber a canção The Great Pretender foi originalmente lançada pelo grupo The Platters em 1955. Posteriormente, a música fez sucesso na voz do vocalista da banda Queen em 1987.

Sinopse:

Edamura é supostamente o melhor trapaceiro do Japão. Junto a seu parceiro, Kudo, eles tentam enganar um francês em Asakusa, mas, inesperadamente, acabam sendo trapaceados por ele. O francês, que eles tentaram enganar, é Laurent Thierry – um homem em um nível muito mais alto, que controla máfias. Edamura ainda está para descobrir o que o aguarda, após se comprometer com os trabalhos sujos do francês…!

Num mundo cheio de caos, crime, máfia e policiais corruptos, existe algo a mais a se apresentar, e isso é a: Moral!

Moral e Ética

A velha discussão social, nos é apresentada quando Makoto fala ter “um limite”. Ao longo do primeiro episódio vemos o protagonista aplicar golpes desde roubos, venda  de produtos falsos e etc. Entretanto ele afirma categoricamente que não “mexe com drogas”.

© The Great Pretender – WIT

É com tal pensamento que fica explícito o que é fora dos limites, para Makoto “o maior Golpista do Japão”. Com tal fala ele apresenta seu limite moral. Mas afinal, o que é moral?

Muitas vezes confundido com ética, os dois conceitos ajudam a reger nossa sociedade. Assim como na animação, nosso mundo é repleto de pessoas que possuem diferentes histórias, religiosidades e conceitos. Apesar disso, todos nos relacionamos e seguimos certas “regras”. Sejam elas gerais ou criadas internamente por um grupo. Todavia, existe uma capacidade de mudança muito importante apresentada não só no anime, como também evidenciada na nossa realidade.

A Dualidade do mundo!

Inegavelmente, vivemos num mundo onde somos ensinados sobre bem e mal, correto e errado. Mas ao mesmo tempo nos deparamos com corrupção, fraldes e o bom “jeitinho brasileiro”. Isto é, vivemos contradições. Não é à toa que acabamos criando nossa moral para podermos continuar inseridos nesse meio social. Por analogia, ao observarmos traços dos personagens apresentados no anime, a mudança de valores ou de como se age sobre eles fica apresentada na figura do segurança.

© The Great Pretender – WIT

Em determinado momento fica claro com sua fala, como ele mesmo já parou de agir de maneira violenta ou com fidelidade cega ao seu empregador. O mesmo busca tão somente conseguir sobreviver para ter um tempo com seu filho. Mesmo não sendo o “bandido” que costumava ser, ele ainda está metido com a máfia, e seu posicionamento é então questionado por Makoto. Mas nesse sentido, qual dos dois está errado? Quem tem a razão?

© The Great Pretender – WIT

Visto que os dois possuem vivências diferentes e estão em posições diferentes, o conflito é válido. Entretanto, com esse mesmo conflito fica evidente outro traço importante e que ajuda a observar a nossa sociedade: mudança. As sociedades mudam, as regras sociais por sua vez mudam. Valores éticos, sobre o que é aceitável ou não mudam. E principalmente os humanos e sua moral muda.

© The Great Pretender – WIT

 “No líquido cenário da vida moderna, os relacionamentos talvez sejam os representantes mais comuns, agudos, perturbadores e profundamente sentidos da ambivalência.”

(Bauman em Modernidade Líquida: sobre a fragilidade dos laços humanos)

O tipo certo de mudança

Um dos grandes filósofos e sociólogos do nosso tempo Zygmunt Bauman, criou o conceito de “mundo líquido”. O mesmo fala sobre como a vida hoje se transforma numa velocidade muito rápida. Tal aspecto gera relações diferentes, sejam elas interpessoais ou para com o ambiente ou mesmo o tempo.

“A modernidade líquida em que vivemos traz consigo uma misteriosa fragilidade dos laços humanos – um amor líquido. A segurança inspirada por essa condição estimula desejos conflitantes de estreitar esses laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos.”

(Bauman em Modernidade Líquida: sobre a fragilidade dos laços humanos)

Podemos tentar simplificar moral para: nossas regras pessoais, aquilo que rege nosso ser baseado em nossos limites autoimpostos. Ética seria aquilo que aprendemos pela convivência social, o que passamos a ditar correto para o convívio de todos. Com isso em mente pode-se ainda associar o conceito de mudança a evolução.

Uma vez que nossas sociedades estão sempre mudando, fica evidente que algo que era “imoral” no passado, não corresponde ao mesmo hoje. Pois esse mesmo passado era repleto de injustiças, preconceitos e ainda mais corrupção. Logo o que vemos como anti-ético hoje pode ser dirigido a um ato machista, racista ou xenofóbico. Como resultado, a mudança pode ser um sinônimo de evolução.

 Por fim…

A moral do golpista é válida? Em que ela se baseia? O anime claro apresenta diversos desenvolvimentos e ainda mais tipos de pessoas e histórias. Visto que tal tipo de narrativa aborda os “limites” das pessoas e aqueles que vivem “a margem” social. A obra presta um bom serviço ao abrir a porta para nossas reflexões. Seja ambivalência, dualidade ou conflitos morais, a discussão do certo e errado permanece. Mas além disso fica a discussão do porquê tais ações seriam condenáveis ou não.

© The Great Pretender – WIT

A música de encerramento fala sobre ser um “pretender”, alguém que finge ser algo para bem próprio. Em sua abordagem inicial pelo The Platters, fica a visão de alguém que finge não se importar com a falta do outro. Quando interpretada por Freddie Mercury, a canção faz referencia a sexualidade e aos estigmas associados ao cantor. No anime podemos imaginar que o protagonista tem fingindo ser um “vigarista”.

© The Great Pretender – WIT

Semelhantemente, todos nós fingimos não nos importar com diversos dilemas que enfrentamos. Entre eles o próprio racismo e xenofobia. Fingimos não nos importar com o recente movimento de “revisionismo histórico” que tenta prejudicar o povo. E no geral fingimos que não é com a gente quando vemos atos ruins sendo cometidos online ou mesmo no mundo real. Mas onde reside nossa moral?

Bonus track

Antes de mais nada, agradeço se leu até aqui. Obrigado pro me acompanhar nessa reflexão e por aceitar a provocação sobre moral e ética. Eu quis não apenas discutir e relembrar esses conceitos, mas também extrapolar e discutir nossas ideias de certo e aceitável. Já falei antes sobre racismo na nossa sociedade no texto sobre o anime  Beastars. Nesse ínterim, gostaria de deixar ainda a sugestão de leitura de um artigo que menciona a questão de revisionismo histórico: One Piece, Wano e o Revisionismo.

Ao mesmo tempo, espero que uma mensagem se sobressaia: apesar de parecer difícil definir uma linha entre o moral e o antiético, ainda assim é valido a discussão. Além disso espero que continuemos a defender a evolução em direção a aceitação. Assim como precisamos facilitar essa mudança.

See You Later Elevator!

Posts Relacionados